Cientistas começam a perfurar o local da "Arca de Noé": radar aponta vazios em ângulo reto sob formação de 164 metros perto do Ararate
Uma equipe turca e americana passou 90 dias na formação em forma de casco, recolheu mil amostras de solo e encontrou cerâmica. Os resultados do laboratório ainda não saíram.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Desde 1959 uma formação de terra e rocha em forma de barco, no leste da Turquia, alimenta a esperança de que ali estejam os restos da arca de Noé. Em 2026 ela voltou ao noticiário: uma equipe liderada pelo professor Cenker Atila, da Universidade Sivas Cumhuriyet, passou cerca de 90 dias no local e, no fim de setembro, começou a perfurar a formação. Até agora não há nenhum resultado de laboratório publicado.
O lugar se chama Durupınar e fica perto da vila de Üzengili, no distrito de Doğubayazıt, a 29 quilômetros ao sul do cume do monte Ararate e a poucos quilômetros da fronteira com o Irã. Tem cerca de 164 metros de comprimento. O número chama atenção porque Gênesis 6:15 dá à arca 300 côvados de comprimento, algo perto de 157 metros, conforme o côvado usado. Para entender o que está em jogo, vale contar a história do lugar, o que a Bíblia de fato diz e o que a ciência precisa ver antes de chamar qualquer coisa de descoberta.
A formação foi notada em 1959 por um capitão do exército turco, İlhan Durupınar, ao examinar fotografias aéreas da região tiradas para mapeamento. Ele viu um contorno oval e pontudo, parecido com um casco, no meio de um terreno de lama e pedras, a quase 2.000 metros de altitude. Em 1960, a revista americana Life publicou a foto, e no mesmo ano uma expedição turca e americana foi até lá. A equipe cavou e examinou o local por dois dias, encontrou só terra e rocha e concluiu que se tratava de um capricho da natureza.
O assunto voltou a partir de 1977 com o americano Ron Wyatt, um enfermeiro anestesista e arqueólogo amador, que visitou o local muitas vezes e afirmou ter encontrado madeira petrificada, rebites de metal e pedras usadas como âncora. Nenhuma dessas afirmações foi aceita por geólogos ou arqueólogos profissionais. Ainda assim, a atenção cresceu, e em 1987 o governo turco declarou a área um parque nacional e construiu um centro de visitantes num morro em frente à formação.
O que a equipe de 2026 encontrou
Segundo o Greek City Times, a temporada deste ano recolheu cerca de mil amostras de solo em 150 pontos, enviadas a Ancara para procurar matéria orgânica e vestígios de madeira. Um radar de penetração no solo, usado em agosto, apontou vazios e anomalias com bordas relativamente regulares, algumas em ângulo reto, que a equipe interpreta como possíveis compartimentos. Também apareceram fragmentos de cerâmica, ainda sem datação. Os resultados são esperados para o inverno de 2026 para 2027, e a universidade pretende publicar um relatório da primeira temporada.
A perfuração é feita com o grupo americano Noah's Ark Scans, que usa um pequeno robô de escavação projetado por Robert Ross, da Universidade La Trobe, na Austrália, segundo outra reportagem do mesmo site. O grupo arrecada doações para a expedição, o que recomenda ler com cuidado o tom das próprias divulgações.
Por que radar e cerâmica ainda não provam nada
Cada um desses indícios tem limites conhecidos. O radar de solo envia ondas para baixo da superfície e registra onde elas voltam. Mudanças de umidade, camadas de argila, fraturas na rocha e blocos soltos produzem reflexos, e formas retas podem surgir de processos naturais. Por isso, uma imagem de radar indica onde cavar, não o que está lá.
Leitura de radar de penetração no solo sobre foto de drone da formação, divulgada pelo grupo em 2021. As cores marcam onde as ondas voltaram mais forte, não o que há embaixo. Foto: Prof. Dr. Cenker Atila / Project Director
A cerâmica mostra presença humana, mas a região de Doğubayazıt é habitada há milhares de anos, numa rota antiga entre a Anatólia e o Irã. Cacos podem ser datados pelo estilo ou por termoluminescência, uma técnica que mede quando o barro foi aquecido pela última vez. Mesmo uma data muito antiga diria quando alguém fez um pote, não que ele tenha vindo de um barco.
As amostras de solo são a parte mais promissora, porque madeira, se existir, pode ser datada por carbono 14. O teste mede o carbono radioativo que um ser vivo deixa de absorver quando morre e funciona para material de até uns 50 mil anos. Mas a história da arqueologia no Ararate tem um aviso. Em 1955, o explorador francês Fernand Navarra trouxe do gelo do monte Ararate um pedaço de madeira trabalhada, apresentado como parte da arca. As datações por carbono 14 feitas depois o situaram entre os séculos VII e VIII depois de Cristo, provavelmente restos de uma capela ou abrigo de peregrinos.
O que dizem os geólogos
A formação de Durupınar já foi examinada muitas vezes, e as conclusões apontam para a mesma direção. Em 1996, o geólogo Lorence Collins e David Fasold publicaram um estudo concluindo que a formação é natural: uma dobra de rocha cercada por material de deslizamento de lama, que ganhou o contorno de casco com a erosão. O caso de Fasold é curioso: anos antes ele tinha escrito um livro defendendo que aquilo era a arca, e mudou de posição depois de estudar as rochas.
Um relatório de 2025 do geólogo turco Eşref Atabey, do órgão de pesquisa mineral da Turquia, chegou à mesma conclusão. Até o geólogo criacionista Andrew Snelling, que defende a historicidade do dilúvio, considera a formação natural. Em janeiro deste ano, o geógrafo Faruk Kaya, vice-reitor da Universidade Ağrı İbrahim Çeçen, comentou ao Christian Today fragmentos de cerâmica achados perto da formação durante obras numa estrada. Para ele, os cacos podem indicar presença humana antiga na região, mas não são prova de ligação com a arca.
O que a Bíblia diz sobre o lugar
Gênesis 8:4 diz que, no sétimo mês, no dia dezessete, a arca repousou "sobre os montes de Ararate", no plural. Ararate não era o nome de uma montanha, e sim de uma região: o antigo reino de Urartu, que floresceu entre os séculos IX e VI antes de Cristo em volta do lago Van e se estendia pelo leste da atual Turquia, pela Armênia e pelo noroeste do Irã. A Bíblia usa o nome nesse sentido em outros textos. Os filhos do rei assírio Senaqueribe, depois de matá-lo, fugiram "para a terra de Ararate" (2 Reis 19:37), e Jeremias convoca contra a Babilônia "os reinos de Ararate" (Jeremias 51:27).
O pico que hoje se chama monte Ararate, com 5.137 metros, o mais alto da Turquia, recebeu esse nome bem depois. O texto bíblico não aponta um cume específico, e por isso a tradição nunca foi única. Cristãos siríacos e a tradição islâmica associam o pouso da arca ao monte Judi, perto da fronteira com a Síria e o Iraque, a uns 300 quilômetros ao sul. O próprio Josefo, no primeiro século, cita o historiador babilônio Beroso dizendo que restos do barco ainda podiam ser vistos na Armênia, nas montanhas dos cordienos, de onde as pessoas levavam pedaços de betume como amuleto.
Outras buscas também não deram em nada. Em 2010, um grupo evangélico de Hong Kong anunciou ter encontrado compartimentos de madeira a cerca de 4.000 metros no monte Ararate. As fotos nunca foram examinadas por especialistas independentes, e outros participantes da busca levantaram dúvidas sérias sobre a origem do material.
Como acompanhar daqui para frente
Para que Durupınar deixe de ser uma possibilidade e vire uma descoberta, alguns passos são indispensáveis. As datações precisam ser feitas por laboratórios reconhecidos e publicadas com os dados, de forma que outros possam conferir. As anomalias do radar precisam ser escavadas e descritas. E os resultados precisam passar por revistas científicas com revisão de especialistas de fora da expedição, incluindo geólogos que conhecem a formação.
Para quem lê a Bíblia, a notícia pede paciência e não ansiedade. O relato de Noé não depende de madeira encontrada na Turquia, e a fé cristã nunca dependeu disso. O texto de Gênesis fala de juízo, de misericórdia e de um recomeço, e Pedro usa a arca como figura da salvação (1 Pedro 3:20-21). Se um dia aparecer evidência sólida, ela vai merecer atenção. Até lá, o mais honesto é dizer o que se sabe e o que ainda falta saber.