Fortificação de 2.200 anos em Quiriate-Jearim pode ser a Emaús onde Jesus apareceu depois de ressuscitar
Escavação de 2019 revelou fortificação helenística reformada no século I que pode corresponder à vila onde Jesus apareceu aos discípulos segundo Lucas.
The Biblical town of Emmaus, which is linked to Jesus’ resurrection and the Ark of the Covenant, may have been found Foto: Fox News
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Dois homens caminhavam a passos lentos pela estrada poeirenta que saía das muralhas de Jerusalém em direção às colinas da Judeia. Era o primeiro dia da semana, logo após a crucificação de Jesus de Nazaré. Tomados pela tristeza e pela perplexidade diante dos relatos de que o túmulo do mestre estava vazio, os discípulos conversavam sobre os acontecimentos recentes quando um desconhecido se aproximou e passou a caminhar com eles. Ao chegarem à pequena vila de Emaús, o visitante aceitou o convite para jantar e, no momento em que partiu o pão, os olhos dos dois se abriram, conforme relata o Evangelho de Lucas 24:13-35. Por séculos, o paradeiro exato dessa aldeia permaneceu um dos maiores mistérios da geografia bíblica.
Em setembro de 2019, uma equipe internacional de arqueólogos apresentou uma nova hipótese que agitou a comunidade acadêmica. Pesquisadores da Universidade de Tel Aviv e do Collège de France anunciaram ter descoberto os restos de uma imponente fortificação helenística de 2.200 anos cujas muralhas foram reparadas durante o domínio romano no século I d.C. no topo da colina de Quiriate-Jearim, localizada na periferia da atual vila árabe de Abu Ghosh, a oeste de Jerusalém.
O achado foi liderado pelos arqueólogos Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, Thomas Römer e Christophe Nicolle, ambos do Collège de France, com o apoio financeiro da família Shmunis, de São Francisco. Os detalhes do estudo foram apresentados em uma publicação científica na revista especializada New Studies in the Archaeology of Jerusalem and its Region. Segundo os pesquisadores, a estrutura militar de grande porte encontrada no local pode ser a chave para identificar a lendária Emaús do Novo Testamento.
O mistério da aldeia onde o Cristo ressuscitado partiu o pão
A narrativa do Evangelho de Lucas especifica que a vila de Emaús ficava a aproximadamente 60 estádios de Jerusalém, uma medida antiga que equivale a cerca de 11 quilômetros ou 7 milhas. Essa distância coincide quase com precisão milimétrica com o trajeto entre o monte do Templo em Jerusalém e a colina de Quiriate-Jearim. O relato bíblico descreve a jornada de ida e a volta rápida dos discípulos a Jerusalém na mesma noite, algo perfeitamente viável para uma caminhada de 11 quilômetros em cada sentido.
Além da distância geográfica, relatos históricos da antiguidade, como os do historiador judaico-romano Flávio Josefo e os livros dos Macabeus, mencionam que Emaús era uma cidade fortificada situada a oeste da capital da Judeia. O general selêucida Báquides, no século II a.C., fortificou uma série de cidades ao redor de Jerusalém para proteger os acessos à região, e Emaús constava nessa lista de pontos defensivos estratégicos.
Os achados arqueológicos em Quiriate-Jearim revelaram justamente que o local desempenhou um papel militar contínuo ao longo de séculos, servindo como posto de controle e guarda para as rotas de tráfego que subiam da planície costeira em direção a Jerusalém. Essa dupla correspondência, tanto na distância de 60 estádios quanto na presença de fortificações massivas da era helenística e romana, fortaleceu a tese apresentada pelos escavadores em 2019.
Muralhas de 2.200 anos nas colinas a oeste de Jerusalém
As escavações em Quiriate-Jearim trouxeram à luz muralhas de pedra maciças, com até três metros de espessura, construídas originalmente durante o período helenístico, quando a influência grega dominava a região. Em entrevista à imprensa na época do anúncio, Israel Finkelstein explicou por e-mail à Fox News que a análise detalhada da alvenaria indicou reparações posteriores executadas durante o início do período romano, coincidindo com a época de Jesus e dos apóstolos.
As descobertas mostram que o local atuava como uma fortaleza para proteger a aproximação ocidental de Jerusalém desde a Idade do Ferro, passando pelas épocas helenística e romana primitiva, explicou Finkelstein. O arqueólogo ressaltou que esses restos arquitetônicos lançavam nova luz sobre a antiga controvérsia da localização da Emaús neotestamentária, oferecendo evidências materiais concretas de uma presença militar ativa na primeira metade do século I.
O trabalho de campo exigiu métodos avançados de geologia, análise paleográfica de inscrições e datação por luminescência opticamente estimulada para determinar a época exata do assentamento dos blocos de pedra. A equipe identificou retificações na estrutura defensiva que demonstram que a fortificação não estava abandonada no século I, mas sim operacional e ocupada por guarnições imperiais ou locais durante as primeiras décadas da era cristã.
A casa temporária da Arca da Aliança e a guarda da capital
A colina de Quiriate-Jearim carrega um significado histórico que vai muito além do período do Novo Testamento. No Antigo Testamento, o local é famoso por ter abrigado a Arca da Aliança por mais de vinte anos. Segundo o relato de 1 Samuel 7:1-2, após a Arca ter sido devolvida pelos filisteus, os homens de Quiriate-Jearim a levaram para a casa de Abinadabe, situada na colina, e consagraram seu filho Eleazar para guardar a Arca do Senhor até que o rei Davi a transferisse para Jerusalém.
Em 2018, no ano anterior ao anúncio sobre Emaús, a equipe de Finkelstein já havia confirmado que a colina na periferia de Abu Ghosh era de fato o sítio histórico de Quiriate-Jearim. As escavações revelaram uma colossal plataforma de terra contida por enormes muros de arrimo do século VIII a.C., provavelmente construída pelo Reino de Israel (do Norte) para demonstrar controle sobre o Reino de Judá.
Essa sobreposição de camadas históricas demonstra como o mesmo monte estratégico manteve relevância religiosa e militar por mais de um milênio. A colina que guardou o símbolo supremo da presença de Deus no tempo dos juízes e reis transformou-se, séculos depois, na fortaleza de onde se avistava a estrada onde o Messias ressuscitado caminharia ao lado de seus seguidores.
Nicópolis e Motza: as rivalidades na busca pela Emaús de Lucas
Apesar do entusiasmo com as descobertas em Quiriate-Jearim, a identificação do sítio como a Emaús bíblica está longe de ser um consenso absoluto entre os historiadores e arqueólogos. Outras localidades disputam há séculos o título de verdadeira vila citada por Lucas. A candidata mais antiga e tradicional é Emaús Nicópolis, localizada no vale de Ajalon, cerca de 30 quilômetros (160 estádios) a oeste de Jerusalém.
Emaús Nicópolis tornou-se um importante centro cristão no período bizantino, e a tradição da Igreja primitiva a identificava com o local do Evangelho. No entanto, os críticos apontam que uma caminhada de 30 quilômetros para ir e mais 30 para voltar no mesmo dia seria um percurso extenuante demais para os discípulos realizarem entre o entardecer e a noite, embora alguns manuscritos antigos do Evangelho de Lucas tragam a leitura de 160 estádios em vez de 60.
Outro local frequentemente apontado por pesquisadores é a vila de Motza, situada a apenas 30 estádios (cerca de 6 quilômetros) de Jerusalém. Motza possui evidências de assentamento romano e é mencionada em fontes rabínicas e por Flávio Josefo como uma colônia de soldados veteranos estabelecida pelo imperador Vespasiano. Críticos dessa proposta argumentam que a distância é curta demais quando comparada com o texto majoritário de Lucas.
O historiador Benjamin Isaac, da Universidade de Tel Aviv, destacou que a proposta de Finkelstein é uma hipótese geograficamente válida, mas continua sendo apenas uma hipótese. Sem uma inscrição da época romana que traga explicitamente o nome Emaús entalhado nas pedras de Quiriate-Jearim, a certeza absoluta permanece inalcançável para a ciência.
Como a ciência lê o texto bíblico sem apagar a tradição
Israel Finkelstein é amplamente reconhecido na arqueologia mundial por defender uma metodologia estritamente baseada em evidências materiais, mantendo uma postura crítica e analítica em relação aos relatos das Escrituras. O arqueólogo declarou em 2017 que ao ler a Bíblia é essencial distinguir fatos históricos de intenções ideológicas ou teológicas dos autores, uma abordagem que aplica rigorosamente em suas pesquisas no campo.
A hipótese que conecta Quiriate-Jearim a Emaús ilustra como a pesquisa científica contemporânea lida com a geografia sagrada. Os arqueólogos não buscam provar milagres ou validar a fé por meio de escavações, mas sim reconstruir o cenário físico e o contexto geopolítico no qual as narrativas do Novo Testamento foram vivenciadas e registradas.
Para os leitores da Bíblia e estudantes da história cristã, a identificação das pedras de Quiriate-Jearim oferece um vislumbre tangível da estrada onde os corações dos discípulos ardiam enquanto o viajante desconhecido lhes expunha as Escrituras. Enquanto as escavações prosseguem e novas pesquisas são publicadas, a colina de Abu Ghosh permanece como um testemunho silencioso das rotas defensivas da antiga Judeia e da memória dos acontecimentos que moldaram o cristianismo.