Família cristã na Índia deixa a casa dos antepassados após ataque de multidão de 150: “Onde vivermos, será com Jesus”
Em Chhattisgarh, três famílias foram espancadas com paus por se recusarem a voltar ao hinduísmo. A de Vikas Salam prefere perder terra e casa a renunciar a Cristo.
Vikas Salam, de 24 anos, rolava na grama de dor quando a polícia o levou ao hospital. Ficavam para trás, em Bhandardigi, aldeia do distrito de Kanker, no estado indiano de Chhattisgarh, a esposa, o tio, o primo e um menino de 11 anos que já não conseguia andar. Todos tinham sido espancados com paus, em 21 de setembro, por uma multidão de cerca de 150 pessoas.
Cinco semanas depois, a família de Salam decidiu deixar a casa, a terra e a aldeia dos antepassados em vez de renunciar a Cristo. A história é do Morning Star News, organização americana que acompanha a perseguição a cristãos, e se apoia no depoimento do próprio Salam. A agência descreve os agressores como extremistas hindus.
“Seguimos Jesus há dez anos”, contou Salam. “Os aldeões nos disseram: ou voltam ao hinduísmo, ou deixam a aldeia.”
Os últimos cristãos de Bhandardigi
Os três lares atacados, 18 pessoas aparentadas entre si, eram os últimos cristãos da aldeia. Segundo Salam, outras famílias cristãs, todas de origem tribal, já tinham sido convertidas à força ao hinduísmo. A pressão sobre as que restaram existe há anos e, nos últimos três, ficou pior, incitada por extremistas locais.
Salam e os seus começaram a seguir Cristo depois de receberem cura física. Ao ler a Bíblia, disse ele, entenderam que o Senhor dá vida eterna. Contou também que a vida mudou: antes havia álcool, brigas e discussões.
Os cultos aconteciam na casa de Salam. Quando os vizinhos passaram a impedir, a família ergueu uma sala na própria roça, fora da aldeia. Os moradores foram até lá também.
Seis convocações em oito dias
A escalada, conforme o relato, teve datas. Em três domingos seguidos, a partir de 6 de setembro, uma multidão interrompeu a reunião dos cristãos. Entre 13 e 20 de setembro, as famílias foram convocadas seis vezes diante do chefe da aldeia e do conselho.
Em todas, segundo Salam, foram xingadas e ameaçadas de surra, boicote e expulsão se não aceitassem o hinduísmo. A resposta dele, nas seis vezes, foi a mesma: onde vivessem, viveriam com Jesus Cristo, e se não pudessem ficar ali, gastariam a vida em outro lugar, sem renunciar à fé.
A família também foi proibida de retirar a ração mensal subsidiada pelo governo, de arroz, trigo e óleo, da qual depende. Em 20 de setembro, véspera do ataque, o culto foi interrompido de novo.
O ataque de 21 de setembro
No dia seguinte, afirma Salam, cerca de 150 pessoas com paus entraram na área onde moravam as três famílias, sem aviso. “Não pouparam ninguém”, disse. Ele levou o pior: foi estrangulado, esbofeteado e chutado, e levou golpes nas costas até o pau quebrar. O tio, Somji Nureti, de 40 anos, foi sufocado pelo pescoço. O primo Pradeep Uike, de 25, apanhou nas costas. Rohan Nureti, de 11, foi atingido nas pernas.
Salam conseguiu fugir por alguns minutos e ligar para a polícia, antes de ser arrastado de volta. A delegacia fica a menos de três quilômetros, mas ninguém veio. Ele escapou outra vez e telefonou ao superintendente de polícia de Kanker, avisando que seriam mortos. Só então os policiais chegaram.
Segundo Salam, os agressores não deixaram os cristãos filmar a surra, e sem imagens a polícia não agiu contra ninguém, ainda que os ferimentos fossem visíveis. Os anciãos da aldeia interromperam, dizendo que tinham dado só dois ou três tapas. Quatro pessoas foram hospitalizadas, entre elas o menino de 11 anos, que não conseguia andar.
No hospital, receberam analgésicos e foram mandados para casa. Lá, as coisas da família estavam jogadas na estrada. Cinco semanas depois, Salam ainda sente dores no corpo, problemas de audição e dor na garganta. Quando anda de moto, o vento no ouvido causa dor intensa, relatou.
“Quer a terra ou Jesus Cristo?”
Depois do hospital, reuniram-se na aldeia o chefe e o secretário do conselho, o chefe de polícia local, magistrados, o responsável pelo registro de terras, um superintendente adjunto de polícia e oficiais de três delegacias. Segundo Salam, a equipe inteira tentou convencer as famílias a ceder.
O pai dele, Ram Salam, de 50 anos, que dorme na roça para vigiar a lavoura, foi chamado com os representantes dos outros dois lares. Disseram que a terra seria confiscada. “Querem a terra ou Jesus Cristo? Têm de escolher um”, ouviu.
Ram Salam e os representantes das outras duas famílias cederam e aceitaram, em nome dos seus, se converter ao hinduísmo. “Temos de salvar a nós mesmos, nossa terra e nossos bens”, disse o pai ao filho. Os aldeões ainda exigiram uma oferenda religiosa, e ele teve de dá-la.
Vikas Salam não cedeu. “Se estivéssemos dispostos a renunciar a Cristo, não haveria necessidade de tantas autoridades”, disse. “Vieram porque não estávamos prontos.” Desde então, os vizinhos o chamam para os rituais, e ele recusa.
Uma onda que não começou em Bhandardigi
A região é de maioria tribal, e os povos tribais não são hindus. Mas, segundo o Morning Star, décadas de campanha de grupos hindus de direita borraram a linha entre a religião tribal e o hinduísmo. Nacionalistas hindus chamam a conversão de cristãos de origem tribal de “ghar wapsi”, retorno ao lar. Líderes cristãos dizem que é conversão forçada.
O caso de Bhandardigi não é isolado. Em 24 de outubro, outra família cristã foi despejada em Chindpal, também em Kanker, e a International Christian Concern registrou nos mesmos dias telhados arrancados de casas de cristãos em Sukma. Em junho, 26 famílias foram expulsas da aldeia de Bharanda e passaram a viver ao relento, sob proteção policial, segundo a Barnabas Aid.
O quadro legal mudou neste ano. O legislativo estadual aprovou em 19 de março a Lei da Liberdade de Religião de 2026, com penas duras, até prisão perpétua, para conversões por força, fraude ou sedução, segundo o UCA News. O texto prevê que a volta à religião ancestral não conta como violação. O governador sancionou a lei em 7 de abril. O chefe do governo estadual, Vishnu Deo Sai, disse que conversões por indução, pressão ou desinformação afetavam a harmonia social. Líderes cristãos replicam que não há prova de conversões ilegais generalizadas no estado, onde cristãos são menos de 2% dos cerca de 30 milhões de habitantes.
A versão das aldeias também aparece. Em outro caso em Chhattisgarh, o conselho da aldeia escreveu à polícia dizendo que as famílias saíram por vontade própria e estavam proibidas de voltar, segundo o Maktoob. As famílias falam em violência e pressão constante. No relato de Salam, nenhuma autoridade de Bhandardigi aparece dando versão própria.
Nos números nacionais, o Open Doors coloca a Índia em 12º lugar entre os países mais difíceis para ser cristão, com 84 pontos em 100. Os convertidos sofrem o maior peso, e os cristãos tribais enfrentam ameaças e reconversão forçada, diz a organização. O Fórum Cristão Unido registrou 834 ataques a cristãos em 2024, contra 127 em 2014.
Casa, campos, perseguições
Em Marcos 10:29-30, Jesus diz que quem deixa casa, irmãos, pai, mãe ou campos por causa dele e do evangelho receberá, agora neste tempo, cem vezes mais, junto com perseguições, e no mundo por vir a vida eterna. A promessa e o preço vêm na mesma frase.
A família Salam ainda está na aldeia, sob ameaça constante de novo ataque, à espera de poder partir. Os vizinhos aguardam que Vikas ceda, como o pai cedeu.
“Decidimos deixar nossa terra, nossa propriedade, nossa casa e nossa aldeia”, disse ele. “Viveremos numa cidade distante, onde tenhamos liberdade para frequentar a igreja e adorar Jesus, mesmo que eu precise trabalhar como diarista.”