Apenas dois dias após desembarcar em solo israelense para iniciar um semestre de estudos, o estudante norte-americano Shiloh Attoun, de 17 anos, caminhava com sua turma entre as ruínas calcárias e os montes gramados do Parque Nacional Tel Gezer, nas terras baixas da Judeia. Era a primeira excursão de campo do grupo da escola Muss High School Israel, vinculada ao Jewish National Fund-USA. Enquanto os instrutores explicavam a importância geopolítica daquela antiga cidade fortifications na Idade do Bronze, Attoun olhou para o chão e percebeu uma pequena pedra trabalhada, de tonalidade diferenciada, repousando solta sobre a terra. Ao recolher o objeto e limpá-lo suavemente com os dedos, percebeu que não se tratava de um pedaço comum de rocha, mas de um amuleto egípcio em formato de escaravelho com 3.300 anos de idade, gravado com figuras de serpentes e símbolos hieroglíficos.
O achado impressionante ocorreu durante uma aula prática de história. Attoun lembrou que, instantes antes da descoberta, o guia da excursão comentava com os estudantes sobre a raridade e a dificuldade de se encontrar um artefato arqueológico autêntico à flor da terra. O jovem imediatamente mostrou o objeto ao seu instrutor. O reitor de alunos da instituição, Benji Hain, e o próprio estudante comunicaram a descoberta à Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA, na sigla em inglês), conforme relata o New York Post. O arqueólogo Adam William Asper, supervisor da IAA na Região Central, deslocou-se até o local para recolher formalmente o artefacto, que passou a integrar a Coleção de Tesouros Nacionais do Estado de Israel. Por ter agido em conformidade com a legislação patrimonial do país, o estudante foi homenageado com um certificado de apreciação.
Simbolismo egípcio e a figura da cobra sagrada
A análise do pequeno objeto foi conduzida pelo professor Ido Koch, do Departamento de Arqueologia e Culturas do Antigo Oriente Próximo da Universidade de Tel Aviv. O especialista datou o escaravelho no final da Idade do Bronze, aproximadamente no século XIII a.C., período marcado por uma intensa presença administrativa e militar do Egito Faraônico na região do Levante Meridional. Na face inferior do pequeno amuleto, lavrado em pedra, surge uma cena icônica bem definida: duas cobras naja posicionadas acima de um semi-elipse. Na iconografia egípcia antiga, a naja é identificada como a *Uraeus*, a serpente sagrada que personificava a proteção divina e o poder real dos faraós.
Abaixo das duas serpentes, a figura semi-elíptica corresponde ao sinal hieroglífico egípcio *nb*, cujo significado traduz-se como "senhor" ou "mestre". A combinação das cobras protetoras com o signo hieroglífico transmitia uma mensagem clara de autoridade divina e proteção real ao portador do amuleto. Segundo o professor Ido Koch, os escaravelhos modelados à imagem do besouro rola-esterco (*Scarabaeus sacer*) eram extremamente populares no Egito e em suas províncias vassalas. Para os egípcios, o besouro simbolizava o deus Khepri, associado à criação diária, ao nascer do sol e à renovação da vida, sendo frequentemente gravado em sua base para funcionar como selo pessoal ou amuleto de proteção individual.
O professor Koch ressaltou ainda que achados semelhantes já foram registrados em outros pontos estratégicos do país. Um escaravelho comparável, retratando três serpentes, foi recuperado em escavações anteriores na antiga cidade de Tel Megiddo. A presença desses amuletos em solo israelense atesta a profunda influência cultural do Egito e evidencia a integração administrativa da Terra de Israel às redes de poder e comércio impulsionadas pelos faraós durante os períodos de dominação egípcia.
Shiloh Attoun discovered a 3,300-year-old Egyptian-style amulet during a tour of Tel Gezer National Park in the Judean Lowlands, Israel. Israel Antiquities Authority Foto: New York Post
Tel Gezer no texto bíblico e na geopolítica da Idade do Bronze
A localização do achado confere um peso histórico ainda maior à descoberta. Tel Gezer foi uma das cidades-estado cananeias mais prósperas e estratégicas do Oriente Médio Antigo. Situada nas colinas da Shephelah (as terras baixas da Judeia), Gezer dominava a junção da rota comercial costeira — a *Via Maris*, que ligava o Egito à Mesopotâmia — com o caminho que subia as montanhas rumo a Jerusalém e ao Vale do Jordão. Quem controlava Gezer controlava o tráfego de mercadorias, exércitos e diplomatas em toda a região central de Canaã.
Para quem estuda as Escrituras Sagradas, a cidade de Gezer carrega referências de grande relevância histórica e teológica. O livro de Josué relata que Horão, rei de Gezer, marchou com suas tropas para auxiliar a cidade de Laquis, mas foi derrotado por Josué (Josué 10:33). Mais tarde, o texto de Josué 16:10 menciona que os cananeus continuaram a habitar em Gezer no meio da tribo de Efraim, pagando-lhe tributos de trabalho forçado. A cidade reaparece com destaque no Primeiro Livro dos Reis, no relato das grandes obras do rei Salomão. O texto sagrado registra: "E esta é a razão do levasse que o rei Salomão impôs... para edificar a casa do Senhor, e a sua casa, e Milo, e o muro de Jerusalém, como também a Hazor, a Megido e a Gezer" (1 Reis 9:15).
O versículo seguinte revela um detalhe histórico fascinante que conecta diretamente Gezer ao Egito: "Porque o Faraó, rei do Egito, subira e tomara a Gezer, e a queimara a fogo, e matara os cananeus que moravam na cidade, e a dera em dote à sua filha, mulher de Salomão" (1 Reis 9:16). Salomão, então, fortificou a cidade reconstruída, consolidando a defesa ocidental do Reino Unido de Israel (1 Reis 9:17). O achado de um amuleto egípcio de 3.300 anos nesse exato local exemplifica materialmente a transição e a sobreposição de influências egípcias e cananeias na cidade séculos antes de sua incorporação ao reino israelita.
Trabalho de campo, conscientização e rigor arqueológico
A reação da equipe educacional e dos alunos ao achado destacou a importância da ética no tratamento de bens arqueológicos. O reitor de alunos Benji Hain relatou que o momento gerou imensa empolgação entre os estudantes, mas que a prioridade foi agir imediatamente conforme as diretrizes legais e científicas. Assim que compreendemos o valor arqueológico do objeto, contatamos a Autoridade de Antiguidades para que o achado fosse documentado no contexto correto, explicou Hain. A diretora educacional da IAA para a Região Central, Amit Melman, elogiou a atitude de Attoun e dos educadores, ressaltando que o gesto permitiu preservar a peça para a comunidade científica mundial.
Melman destacou que o episódio ilustra o vínculo profundo que jovens da diáspora desenvolvem com a história viva da região ao participarem de programas educacionais em campo. Quando um estudante manuseia um objeto selado há mais de três milênios, a história lida nos livros didáticos transforma-se em um testemunho concreto. Da mesma forma, a diretora do Jewish National Fund-USA em Israel, Tali Tzour Avner, e o ministro do Patrimônio de Israel, Amichai Eliyahu, enfatizaram que a preservação responsável de tais artefatos fortalece a custódia do patrimônio histórico nacional e bíblico.
A Autoridade de Antiguidades de Israel aproveitou a ocasião para reiterar os protocolos públicos de preservação patrimonial. A orientação oficial determina que qualquer pessoa que encontre um artefato antigo durante passeios ou caminhadas em parques estaduais deve manter o objeto exatamente no local de descoberta e notificar as autoridades imediatamente. A preservação da camada de solo e do contexto estratigráfico é fundamental para que os arqueólogos consigam determinar com precisão a época, a camada ocupacional e a função exata das peças recuperadas.
Agora integrado ao catálogo nacional de antiguidades, o pequeno escaravelho descoberto por Shiloh Attoun continuará a ser analisado por especialistas em egiptologia e arqueologia do Levante. O amuleto de 3.300 anos permanece como um testemunho silencioso das antigas caravanas, reis e oficiais que cruzaram as estradas de Tel Gezer, conectando o mundo dos faraós às narrativas que moldaram as páginas da Bíblia.
Scarabs—amulets modeled after the dung beetle—were common in ancient Egypt and were sometimes used as seals. The beetle symbolized creation and new life in Egyptian belief. Israel Antiquities Authority Foto: New York Post
Scarabs found in Israel attest to ancient Egypt’s cultural influence on the region and its connections with the Land of Israel during periods of Egyptian rule. Israel Antiquities Authority Foto: New York Post