Em julho, guardas armados assumiram o controle do terreno da Igreja Evangélica de São Pedro, no centro de Teerã, encerrando décadas de acolhimento e culto no local. O edifício histórico, fundado no século XIX e considerado o templo protestante mais antigo da capital iraniana, teve sua posse transferida para a Execução da Ordem do Imam Khomeini, uma organização estatal destinada a confiscar propriedades privadas e religiosas sob ordens dos tribunais revolucionários. O despejo abrupto afetou 27 residentes das minorias armênia e assíria, que viram as portas do local serem lacradas um mês antes do prazo estipulado pelo próprio governo.
Mai Sato, the U.N. Special Rapporteur on the situation of human rights in Iran, addresses a special session of the U.N. Human Rights Council on the deteriorating human rights situation in Iran, in Geneva, Jan. 23, 2026. Screenshot: YouTube/United Nations Office at Geneva Foto: christiandaily.com
A ação violenta chamou a atenção de relatores internacionais e revelou a dimensão do controle estatal sobre a prática religiosa. O governo do Irã respondeu a apenas uma das oito comunicações formais enviadas por especialistas em direitos humanos da ONU desde 2011 sobre a situação das comunidades cristãs no país, segundo dados revelados pela relatora especial das Nações Unidas para os direitos humanos no Irã, Dra. Mai Sato. Em entrevista concedida à organização de monitoramento Article18, a acadêmica da Universidade de Londres destacou que a única resposta formal enviada por Teerã serviu justamente para rotular os fiéis convertidos de origem persa como elementos subversivos.
O documento oficial iraniano, encaminhado às Nações Unidas em resposta a uma interpelação de 2020, alegava que os cidadãos detidos não foram julgados por sua fé, mas por ofensas gravíssimas contra o Estado. Na visão dos tribunais de Teerã, a conversão do islamismo ao cristianismo e o exercício do culto em idioma persa constituem ameaças diretas à ordem pública. De acordo com os relatórios das Nações Unidas, a narrativa estatal tenta dividir a fé no país entre as minorias étnicas históricas e os novos convertidos, ainda que a recente apreensão demonstre que até mesmo os grupos reconhecidos sofrem com o confisco de seus bens.
O despejo da igreja protestante mais antiga de Teerã
O confisco da Igreja Evangélica de São Pedro marcou uma mudança qualitativa no padrão de opressão relatado por observadores internacionais. Até então, a maioria dos alertas enviados pela ONU tratava da prisão arbitrária, detenção e maus-tratos infligidos a cristãos individuais, quase sempre convertidos do islamismo que se reuniam em clandestinidade. A ação contra São Pedro atingiu uma propriedade histórica e membros de comunidades étnicas tradicionais, como armênios e assírios, cujos direitos teóricos de culto estão previstos na constituição do país.
Agentes estatais confiscaram o complexo da Igreja Evangélica de São Pedro, a igreja protestante mais antiga da capital iraniana, e despejaram 27 residentes semanas antes da data limite informada anteriormente. Uma comunicação conjunta assinada por Mai Sato e por Nazila Ghanea, relatora especial da ONU para a liberdade de religião ou crença, exigiu a revogação imediata da medida e alertou para o esvaziamento sistemático da presença protestante na nação. O regime iraniano não respondeu à carta enviada pelos especialistas.
A destruição do espaço para cultos em persa tem sido um processo gradativo e implacável nas últimas décadas. Especialistas em liberdade religiosa apontam que, das cerca de 50 igrejas protestantes em língua persa que existiam no Irã, hoje praticamente nenhuma continua de portas abertas para celebrações públicas. As autoridades fecharam os templos ou exigiram o encerramento completo das atividades no idioma nacional, forçando a comunidade cristã local a buscar refúgio em reuniões privadas nas casas de família.
Reuniões em casas e Bíblias tratadas como atos de espionagem
A justificativa de segurança nacional utilizada pelo regime iraniano mascara o exercício comum e pacífico de práticas espirituais. Nos processos judiciais movidos pelo Estado, a acusação de propaganda contra a República Islâmica é frequentemente fundamentada em atos simples do cotidiano religioso. A leitura de textos sagrados, a oração comunitária e a participação em conferências no exterior são apresentadas pelos promotores públicos como operações de inteligência estrangeira ou tentativas de desestabilização política.
A relatora da ONU explicou que, ao examinar os autos das condenações, a conduta real por trás dos crimes de segurança costuma ser surpreendentemente simples. Reuniões domésticas de oração e a simples distribuição de Bíblias são rotuladas pelo Poder Judiciário iraniano como crimes contra o Estado, levando cidadãos comuns a cumprirem longas penas de prisão em regimes fechados. Em um dos casos registrados pelos observadores, um cristão foi classificado oficialmente como espião internacional apenas por ter viajado ao exterior para participar de um encontro de capacitação ministerial promovido por uma igreja parceira.
A única resposta oficial de Teerã justificou a repressão classificando cristãos convertidos do islamismo como uma séria ameaça à segurança nacional, uma postura que ignora os tratados internacionais dos quais o Irã é signatário. A negação de direitos fundamentais impõe um clima de constante vigilância sobre os fiéis persas, que vivem sob o risco iminente de invasões domiciliares, apreensão de aparelhos eletrônicos e interrogressões agressivas por parte dos serviços de inteligência.
O papel de registrar a verdade sob um mandato sem acesso ao país
A atuação do Relator Especial sobre a situação dos direitos humanos no Irã enfrenta severas limitações operacionais impostas pelo próprio governo do país. Desde a restauração do mandato pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em 2011, nenhum ocupante do cargo recebeu permissão para desembarcar em solo iraniano. Por essa razão, os relatórios são elaborados a partir de entrevistas com a diáspora em países vizinhos, depoimentos de testemunhas e dados fornecidos por organizações civis especializadas no monitoramento da região.
Sato, que assumiu a função independente e não remunerada em agosto de 2024 acumulando o cargo com sua docência acadêmica na Universidade de Londres, reconheceu as barreiras impostas pela recusa de cooperação. As autoridades de Teerã recusam-se a reconhecer a legitimidade de seu mandato e proíbem sua entrada em território iraniano, enquanto permitem a visita de outros peritos da ONU que tratam de temas econômicos ou de moradia. Diante desse isolamento forçado, a relatora depende de canais seguros mantidos por entidades parceiras para receber denúncias das vítimas.
Embora não possua poderes executivos para anular decisões judiciais ou deter ordens de confisco, a relatora ressalta que o mandato cumpre uma função essencial de preservação da memória e da verdade histórica. A documentação rigorosa das violações garante que as versões estatais não prevaleçam como narrativa única sobre os acontecimentos. O principal objetivo de seu trabalho é monitorar, documentar e preservar provas do que as vítimas e suas famílias estão enfrentando no dia a dia, construindo um acervo institucional que poderá embasar futuros mecanismos de responsabilização e justiça.
O que a fé cristã ensina sobre o sofrimento e a perseverança
A história da igreja no Irã reflete a dor e a resiliência descritas no texto bíblico desde os primeiros séculos do cristianismo. Na Carta aos Hebreus 13:3, a Escritura exorta os fiéis a manterem viva a memória dos irmãos perseguidos: "Lembrem-se dos que estão na prisão, como se estivessem encarcerados com eles; e dos que estão sendo maltratados, como se vocês mesmos estivessem sofrendo no corpo". Essa solidariedade espiritual conecta a igreja global aos cristãos iranianos que enfrentam a perda de seus locais de culto e a privação da liberdade.
Apesar das intensas pressões políticas, do conflito regional e das sucessivas ondas de repressão a protestos populares que monopolizam a atenção internacional, a vivência diária da fé no Irã permanece como uma prioridade de direitos humanos. Sato fez questão de enfatizar em sua mensagem que a vida de um indivíduo não se resume à mera sobrevivência física ou ao suprimento de necessidades básicas, mas inclui o direito inalienável de professar suas convicções espirituais, cultivar a vida comunitária e educar os filhos segundo a sua fé sem o constante temor da sanção estatal.
Diante do cenário incerto, a orientação repassada às famílias afetadas e aos prisioneiros de consciência é para que continuem registrando cada violação quando houver segurança para fazê-lo. Sato pediu aos cristãos iranianos perseguidos que continuem compartilhando seus relatos de forma segura com o seu mandato ou por meio de organizações de confiança. Cada depoimento enviado ajuda a compor o acervo internacional que impede o esquecimento das arbitrariedades cometidas contra a comunidade de fé no país.