Templo cristão histórico no Sudão enfrenta ameaça de demolição imediata em meio a labirinto burocrático e velada perseguição
Autoridades locais alegam uso irregular de espaço público, mas líderes da congregação exibem títulos de propriedade da década de 1980.

As margens do Rio Nilo, na cidade de Omdurman, o som de tratores e a ordem inesperada de despejo interromperam a rotina de uma congregação cristã que resiste há mais de quatro décadas. No dia 21 de julho, agentes de terras chegaram sem aviso prévio à Igreja Sudanesa de Cristo, localizada na área de Al-Murzouq, e anunciaram uma demolição iminente sob a alegação de que o templo estaria construído de forma ilegal em terras públicas. O edifício, que atende cerca de trezentos fiéis, foi erguido no início da década de 1980 e possui documentação de propriedade legítima que remonta a esse período.
Quando os líderes da comunidade apresentaram os títulos oficiais de posse aos fiscais, receberam a instrução de levar a papelada até o distrito de Kereri. Ao cumprirem a exigência, novos encaminhamentos os enviaram ao Ministério dos Assuntos Religiosos, que por sua vez repassou o caso ao Departamento de Engenharia e Planejamento Urbano. Os papéis permanecem empacotados na burocracia estatal, enquanto prazos curtos foram impostos pelas autoridades, primeiro com um limite de duas semanas e depois com uma prorrogação de mais sete dias no início de agosto.
O pastor Tia Alasara Malasa Kuku relatou que a comunidade vive sob sobressalto constante, temendo que a destruição ocorra a qualquer momento. Para os líderes religiosos, a justificativa de ocupação de espaço público não passa de um pretexto para camuflar uma campanha sistêmica de perseguição religiosa. O Sudão ocupa a quarta posição na Lista Mundial da Perseguição de 2026, elaborada pela organização Open Doors, o que reflete as barreiras enfrentadas por minorias em um país onde os cristãos representam cerca de dois por cento da população total.
A estratégia de sufocar comunidades cristãs por meio de embargos administrativos e demolições sem aviso prévio possui precedentes documentados na capital sudanesa e em seus arredores. Em sete de junho, um cenário semelhante atingiu a Igreja Evangélica Presbiteriana do Sudão na área de Mayo Angola, ao sul de Cartum, quando diretores de planejamento alertaram os líderes sobre uma possível demolição sem fixar data, limitando-se a ordenar que ficassem preparados.
Demolições e o histórico de repressão estatal
A desarticulação de complexos religiosos no país segue um padrão recorrente de desrespeito a direitos adquiridos e leis de zoneamento. Em oito de julho de 2025, um complexo da Igreja Pentecostal no distrito de East Nile, em Cartum Norte, foi demolido por tratores e forças armadas sem que os responsáveis apresentassem qualquer notificação prévia ou solicitassem os documentos de propriedade do terreno que abrigava o salão de cultos e escritórios administrativos.
Organizações internacionais de direitos humanos registraram que tais ações costumam ser justificadas pelo governo sob o argumento de remoção de construções consideradas irregulares em todo o estado de Cartum. No entanto, lideranças eclesiásticas apontam que o acesso a novas licenças e a designação de terrenos para a construção de templos são sistematicamente bloqueados pelos órgãos públicos, criando uma armadilha legal para as congregações históricas do país.
Fontes
O que se sabe
- Autoridades de terras ameaçaram demolir a Igreja Sudanesa de Cristo em Omdurman por suposta ocupação irregular.
- A documentação de propriedade do templo data do início da década de 1980.
- A papelada do caso está retida no Departamento de Engenharia e Planejamento Urbano após sucesivos encaminhamentos burocráticos.
- O Sudão ocupa a quarta posição na Lista Mundial da Perseguição de 2026 da Open Doors.
O que ainda não se sabe
- Qual será o desfecho da análise dos documentos de propriedade nos órgãos estatais.
- Se as autoridades executarão a demolição antes de uma revisão formal do caso.
- Quais medidas o Conselho de Igrejas do Sudão adotará para reverter a ordem de destruição.

