Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
A fortaleza de Gal'on, na Floresta de Guvrin, foi reinaugurada na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, depois de trabalhos de escavação, conservação e acessibilidade feitos pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) e pelo Fundo Nacional Judaico (KKL-JNF). Não é uma descoberta nova. É a abertura definitiva de um sítio escavado e publicado pelos próprios arqueólogos, que já recebia visitantes de forma provisória.
Uma reabertura, não uma descoberta
A distinção importa porque algumas manchetes dão a impressão de um achado recém-saído da terra. Segundo o Haaretz, a estrutura foi descoberta em 2018. A IAA anunciou o achado em 24 de agosto de 2020, e o local foi aberto de modo provisório há seis anos. A obra agora concluída melhorou a conservação das ruínas e a visita.
O KKL investiu cerca de 400 mil shekels. Entre as novidades estão estrada de acesso, estacionamento, área de piquenique, vagas e trilha acessíveis até a fortaleza e placas atualizadas. A floresta, desenvolvida pelo KKL desde 1963, é plantada: o entorno que o visitante vê hoje não é a paisagem do século 12 a.C.
Os arqueólogos responsáveis são Saar Ganor, da IAA, e Itamar Weissbein, da Universidade Hebraica de Jerusalém. A descrição completa saiu na revista 'Atiqot, da própria IAA, no artigo . , que é justamente o ponto em debate.
É uma publicação científica dos escavadores, e não uma avaliação independente de terceiros sobre a interpretação
Um quadrado de 18 metros vigiando a estrada entre Laquis e Gate
O edifício fica em Gal'on, na Sefelá judaica, entre Tel Zayit e Tel Burna. A Sefelá é a faixa de colinas baixas entre a planície costeira e as montanhas de Judá. O local fica cerca de 40 minutos ao sul de Jerusalém. Fica junto ao Nahal Guvrin, e de lá se observava uma estrada importante que ligava a região à planície costeira.
A posição era de fronteira. A leitura dos escavadores é que o edifício ficava entre o reino cananeu de Laquis e o reino filisteu de Gate. Laquis, hoje Tel Lachish, foi uma das cidades mais importantes do sul de Canaã. Governantes de Laquis aparecem nas cartas de Amarna, o arquivo diplomático egípcio do século 14 a.C.
A construção mede 18 por 18 metros e tem torres de vigia nos quatro cantos. A entrada conserva uma soleira talhada em uma só pedra, de cerca de três toneladas. Por dentro há um pátio pavimentado com lajes e colunas no centro, com cômodos dos dois lados. Segundo o comunicado de 2020 da IAA, foram achadas centenas de vasos de cerâmica, alguns inteiros. Entre eles havia taças e tigelas que talvez servissem a rituais. Muitas tigelas imitavam o estilo das tigelas egípcias.
A escavação contou com estudantes de uma escola multidisciplinar de Be'er Sheva, jovens de um programa pré-militar e outros voluntários.
O artigo científico descreve um edifício isolado, de uma única fase de uso, datado do século 12 a.C. (Bronze Final III ou Ferro IA). Esses termos designam a transição entre a Idade do Bronze e a do Ferro, quando Canaã ainda era dominada pelo Egito. Nos resumos que consultei, a datação aparece associada à comparação com edifícios de planta e dimensões parecidas. Não encontrei neles menção a datação por radiocarbono.
Uma única fase de uso significa que o prédio não foi reformado nem reocupado por muito tempo. Significa também que não há uma sequência de camadas, como num tel de cidade, o que torna a datação mais dependente de comparações com outros sítios.
Cananeus, egípcios ou ambos: o que os próprios escavadores admitem
O comunicado de 2020 dizia que a fortaleza foi construída como tentativa cananeia de se defender da ascensão dos filisteus. Em 2026, a formulação dos arqueólogos é mais aberta: a fortaleza teria feito parte de uma tentativa cananeia ou egípcia de lidar com a nova realidade geopolítica.
O artigo científico vai na mesma direção. Segundo o resumo na revista 'Atiqot, o prédio pode ter sido ocupado por uma força militar egípcia ou, com maior probabilidade, por uma força cananeia ligada à cidade-estado de Laquis. A construção teria relação com a reorganização de Canaã sob domínio egípcio, possivelmente no reinado de Ramsés III. Ramsés III é considerado rei de 1185 a 1154 a.C. Quem lê que a fortaleza foi construída por cananeus sob controle egípcio está lendo a versão simplificada de uma hipótese que os autores formulam com cautela.
O contexto político é conhecido. O edifício se parece em planta e dimensões com outros chamados “residências de governadores”, associados ao domínio imperial egípcio em Canaã nas dinastias 19 e 20. Depois de enfrentar os Povos do Mar, Ramsés III, segundo o Papiro Harris I, assentou os derrotados em “fortalezas”, provavelmente em Canaã. Os filisteus se fixaram na costa sul. Segundo a IAA, os israelitas haviam se estabelecido em povoados sem fortificações nos montes de Judá.
O fim do arranjo também é discutido. A IAA diz que, no meio do século 12 a.C., os egípcios deixaram Canaã, e a saída teria deixado as cidades cananeias sem proteção, destruídas provavelmente pelos filisteus. No artigo dos escavadores sobre as residências de governadores, a retirada egípcia é datada comumente por volta de 1130 a.C. A diferença entre “meio do século” e 1130 mostra que a cronologia é aproximada.
O que o livro de Juízes diz sobre essa região e esse tempo
O texto bíblico não menciona a fortaleza, e nenhum documento antigo conhecido a nomeia. A ligação feita pelos arqueólogos é com o período descrito em Juízes. Segundo Ganor e Weissbein, a fortaleza dá uma ideia da realidade geopolítica do livro, em que cananeus, israelitas e filisteus lutam entre si. É um enquadramento histórico, não uma identificação.
O livro registra a dificuldade das tribos na planície. Em Juízes 1:19, Judá toma a região montanhosa, mas não expulsa os habitantes do vale, por causa dos carros de ferro. O mesmo território da Sefelá aparece listado em Josué 15:33-44, com Laquis no versículo 39. Em Juízes 3:31, Sangar ataca os filisteus. Em Juízes 13:1, o povo é entregue aos filisteus por quarenta anos, e as histórias de Sansão se passam nessa fronteira. Juízes 21:25 resume a época: não havia rei em Israel. Séculos depois, em 1 Samuel 17:1-4, os filisteus acampam entre Soco e Azeca, em Judá, e o campeão deles, Golias, vem de Gate, o reino que a fortaleza ficava vigiando.
A referência extrabíblica mais antiga a Israel vem do Egito. A Estela de Merneptah, de um faraó que reinou de 1213 a 1203 a.C., é a mais antiga referência textual a Israel. Nas duas últimas linhas, o rei diz ter derrotado Ascalão, Gezer, Yanoam e Israel. A estela mostra que havia um grupo chamado Israel em Canaã por volta de 1208 a.C., segundo o Haaretz. A origem desse povo continua em debate, entre quem segue o relato bíblico de uma chegada de fora e quem defende uma emergência a partir da população cananeia local. Gal'on não resolve essa discussão.
O que o sítio oferece ao leitor da Bíblia é o cenário material: um posto fortificado, com marcas de influência egípcia, num trecho de fronteira onde o texto situa conflitos com filisteus.
As residências de governadores e a discussão entre os especialistas
A categoria “residência de governador egípcio” foi proposta por Eliezer Oren. Em 1984, Oren identificou uma série de estruturas dos séculos 13 e 12 a.C. no sul de Canaã e as chamou assim. Os próprios Ganor e Weissbein usam o termo com ressalva: falam em estruturas “supostamente” associadas ao domínio egípcio.
O crítico mais direto é Jeffrey Blakely, da Universidade de Wisconsin. No artigo de 2018 na Palestine Exploration Quarterly, ele sustenta que o nome não descreve a função dos prédios, que seguem em debate. Também contesta a explicação clássica de que serviam para recolher impostos em grãos. Segundo ele, o século 13 e sobretudo o 12 a.C. foram marcados por seca, num território já marginal para a agricultura. Blakely propõe que eram pequenos postos de observação e controle de pastagens e poços. Observa ainda que dois dos exemplos originais de Oren, Tell Jemmeh e Tel Masos, tendem hoje a ser descartados.
Há quem veja o quadro de outra forma. Israel Finkelstein, Dafna Langgut, Lidar Sapir-Hen e Meiri assinam um estudo de 2017, listado na mesma página da Academia.edu, em que sugerem que a administração egípcia estimulou a expansão da agricultura de sequeiro em Canaã como reação à crise climática. Eles não tratam de Gal'on, mas a conclusão vai no sentido oposto à de Blakely.
Outro ponto aberto é Laquis. Há debate em curso sobre a natureza das fortificações da cidade no período, e uma enciclopédia descreve a Laquis dessa fase como próspera, populosa e sem muralhas. Se a cidade não tinha muralha, a lógica de uma fortaleza de fronteira precisa ser explicada, e o artigo sobre Gal'on trata disso ao comparar o prédio com outros do mesmo tipo.
O que fica de fora das manchetes
A manchete do Haaretz fala em “época dos Profetas”. Os escavadores e a IAA falam em época dos Juízes. No cânone hebraico, Juízes faz parte dos chamados Profetas Anteriores, mas os profetas escritores, como Isaías e Amós, viveram séculos depois, a partir do século 8 a.C. Para o leitor comum, “época dos Profetas” sugere o período dos reis de Judá, e a fortaleza é anterior à monarquia.
O texto do Haaretz também diz que o sítio abriu cerca de oito anos depois da primeira apresentação pública. Outras fontes falam em seis anos, e o comunicado da IAA é de agosto de 2020. A idade também varia: Gal'on é datada do meio do século 12 a.C.; o Israel365 fala em 3.100 anos, enquanto Haaretz e IAA falam em 3.200. A diferença está dentro da margem da datação.
O Haaretz localiza o sítio no “centro de Israel”, e o Jewish Chronicle fala em sul de Israel. Em termos geográficos, é a Sefelá, ao sul de Jerusalém e perto de Kiryat Gat.
Há ainda as imagens. Uma das ilustrações divulgadas é uma reconstrução feita por inteligência artificial, com base em proposta de Weissbein. A altura das paredes, as torres completas e a cobertura são hipóteses, pois o que resta no chão são fundações e partes baixas.
Por fim, a reabertura teve tom político. Segundo o All Israel News, o ministro do Patrimônio, Amichai Eliyahu, associou o sítio à situação de segurança atual. A arqueologia do local não depende dessa leitura.