Arqueólogos expõem 300 metros do aqueduto de 21 km que levava água ao Monte do Templo, perto de Ramat Rachel; datação é debatida
Trecho do Aqueduto Inferior, achado em obras de um bairro novo, vinha do sul de Belém ao Templo; origem hasmoneia é provável, data exata segue em debate.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
A Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) anunciou no domingo, 11 de outubro de 2026, que escavações ao sul do kibutz Ramat Rachel, na periferia de Jerusalém, expuseram 300 metros do Aqueduto Inferior da cidade. O canal levava água das nascentes ao sul de Belém, por meio das Piscinas de Salomão, até o Monte do Templo. É um achado de arqueologia de salvamento, divulgado em comunicado e apresentado na 19ª conferência “Novos Estudos na Arqueologia de Jerusalém e Região”. Não é um estudo revisado por pares.
Os diretores da escavação, Benyamin Storchan e Gil Freid, dizem que a obra foi provavelmente erguida no tempo dos reis hasmoneus, a dinastia que governou a Judeia entre cerca de 140 e 37 a.C., como registra a Aleteia. O “provavelmente” é a palavra central da notícia: trata-se de uma atribuição, e não de uma data medida para este trecho.
Um canal de pedra que cai apenas um metro por quilômetro
A descoberta ocorreu em terreno onde a Autoridade de Terras de Israel pretende construir um bairro. Segundo o Times of Israel, o projeto está a muitos anos de ficar pronto e deve chegar a 1.800 unidades residenciais. A escavação foi feita antes das obras, sob a direção de Storchan, Freid e Rotem Cohen.
Quem imagina arcos monumentais, como os dos aquedutos de Cesareia ou da Itália, se engana. Storchan descreveu ao jornal uma parede de duas fileiras de pedras, com um canal em U no meio, rebocado e provavelmente coberto por lajes. A água corria só por gravidade. A diferença de altitude entre o começo e o fim é de cerca de 30 metros ao longo de 21 quilômetros, uma queda média de um metro por quilômetro, segundo o Times of Israel e o Ynetnews. Onde um morro cortava o caminho, os construtores abriram túneis para não perder inclinação, e pontos de limpeza davam acesso ao canal para desentupi-lo.
O trecho guarda camadas de reforma. Há cerca de 500 anos, no período otomano, tubos de cerâmica foram instalados dentro do canal original. Amit e Gibson, em artigo acadêmico, situam essa reforma em 1541, no reinado de Solimão, o Magnífico. Na mesma fase a parede externa foi rebocada e pequenas pedras foram cravadas no reboco úmido, criando uma superfície áspera que, segundo a IAA, acompanha o aqueduto por todo o trajeto, como relata o Jerusalem Post. Amit Re’em, arqueólogo do distrito de Jerusalém da IAA, chamou a obra de “maravilha da engenharia”. Storchan observou que os primeiros topógrafos trabalharam com cálculos simples e acertaram.
Ninguém foi pego de surpresa. O Haaretz informa que o trecho apareceu exatamente onde os arqueólogos supunham, a cerca de cinco quilômetros do Monte do Templo. O que muda é o detalhe: dos 21 quilômetros do percurso, só uns dois foram escavados até hoje. Freid usou mapeamento de satélite de alta precisão para estimar o traçado onde prédios modernos apagaram o canal, ao menos ao norte do bairro de Gilo, segundo o Times of Israel. O jornal lembra que escavações na Cisjordânia ficam sob outra autoridade.
A origem hasmoneia é a hipótese preferida, mas ninguém mediu a data deste trecho
Datar um aqueduto é mais difícil do que parece. Cerâmica e moedas achadas no entorno podem ter circulado por décadas, e por isso, como explica o Haaretz, os arqueólogos fazem uma espécie de engenharia reversa, descascando as camadas de reboco uma a uma. Outro método é escavar o aterro encostado na parede do canal: o objeto mais recente ali dentro indica a data mais antiga possível da obra.
Esse método foi usado em Armon Hanatziv, também em Jerusalém, onde Ya’aqov Billig achou no aterro cerâmica do Segundo Templo e moedas, a mais recente atribuída a Herodes. O artigo de Amit e Gibson, publicado em 2014 nos anais do congresso Cura Aquarum in Israel, resume o impasse: o aqueduto estava em uso no período do Segundo Templo, mas a prova absoluta de que já existia sob os hasmoneus não apareceu. Billig, mesmo assim, defende fundação hasmoneia.
As posições têm nome e argumento. Amihai Mazar, que levantou todo o sistema em 1969, sustenta desde 1971 a data hasmoneia, embora admita não ter tido dado preciso sobre a construção. Joseph Patrich propôs, por razões históricas, os reinados de João Hircano ou de Alexandre Janeu. Um estudo de A. Solomon, de 2007, baseado nos manuscritos de Qumran, apontou cerca de 152 a.C., no tempo de Jônatas. Amit e Gibson acham isso cedo demais e preferem a época posterior ao cerco de Jerusalém por Antíoco VII Sidetes, em 132 a.C. No século 19 e no início do 20, Conrad Schick e G. A. Smith atribuíam a obra a Herodes, o Grande.
O Times of Israel fala em construção por volta de 100 a.C., uma data específica que o comunicado da IAA não afirma. O Haaretz diz que o debate acadêmico sobre a datação continua. Não encontrei, nas fontes consultadas, uma datação absoluta, como radiocarbono do reboco, publicada para o trecho de Ramat Rachel. A técnica já foi aplicada a outro aqueduto do sistema: um estudo de Uzi Leibner e Azriel Yechezkael, na revista Geoarchaeology, em 2021, sugeriu por radiocarbono que o aqueduto de Biar foi construído por volta do meio do século 1 d.C.
Por que o Templo precisava de tanta água, e o que a Bíblia diz sobre isso
A Bíblia não menciona esse aqueduto. O que ela registra é a exigência de água no culto. Deus manda fazer uma bacia de bronze para que Aarão e seus filhos lavem mãos e pés antes de servir (Êxodo 30:17-21). No Dia da Expiação, o sumo sacerdote banha o corpo em água antes de vestir as vestes sagradas (Levítico 16:4,24).
Jerusalém sempre teve sede. Segundo 2 Reis 20:20, Ezequias fez o reservatório e o canal que trouxeram água para dentro da cidade. Storchan explica que a chuva e a fonte de Giom não bastavam no período do Segundo Templo, sobretudo quando a população crescia nas festas de peregrinação. Lucas 2:41-42 lembra que a família de Jesus subia a Jerusalém todos os anos, na Páscoa.
Amit e Gibson estimam uma população de pelo menos 50 mil pessoas e apontam a necessidade de água para a purificação ritual e para lavar as áreas de sacrifício junto ao altar. Um único aqueduto entregava cerca de 230 litros por minuto. Fontes rabínicas posteriores, citadas por eles, dizem que a nascente de Etam ficava 23 côvados acima do pátio do Templo (Yoma 31a) e que o sumo sacerdote se imergia, no Dia da Expiação, com água dela (Zebahim 54b). No Monte do Templo, o canal terminava numa grande cisterna, conhecida em árabe como Bahr al-Kabir.
O nome Piscinas de Salomão vem da tradição que liga os reservatórios a Eclesiastes 2:6, em que o Pregador diz ter feito tanques para regar um bosque. Storchan chama o nome de equivocado, segundo o Haaretz. Amit e Gibson dizem que só as duas piscinas superiores são mais antigas, que a inferior é mameluca, de 1483, e que o Aqueduto Inferior foi alimentado primeiro pela nascente de Etam, perto de Artas, e só depois pela base da piscina inferior.
Para o leitor cristão, a pergunta é se Jesus bebeu dessa água. Douglas Estes, professor associado de religião do New College of Florida, disse à Fox News, segundo a Aleteia, estar “confiante” de que Jesus, os discípulos e os primeiros cristãos usaram a água do sistema. A própria Aleteia ressalva que não há prova arqueológica ligando pessoas específicas ao canal. O que existe é coincidência de época: Amit e Gibson afirmam que o aqueduto estava em uso no Segundo Templo, e as obras de Herodes exigiam muita água. João 7:2,37-38 coloca Jesus no Templo, na festa das Tendas, convidando os sedentos a beber, e comentaristas associam a cena à cerimônia da água daquela festa. É inferência, não achado.
O que algumas manchetes esticam
A palavra “descoberto” sugere uma novidade que não existe. A rota era conhecida: Edward Robinson percorreu o traçado em 1838, Mazar o mapeou em 1969, e Yonatan Nadelman escavou 150 metros dele em 1997 e 1998, abaixo do Hotel Diplomat, identificando seis fases de construção, a mais antiga do período romano antigo. O Times of Israel lista segmentos já expostos em Armon Hanatziv, Giv’at HaMatos, Ramat Rachel e Jerusalém Oriental.
Algumas matérias, como a do Algemeiner, falam em trecho “notavelmente preservado” e em uso por quase dois milênios. A IAA fala em uso intermitente. O Haaretz diz que não se pode afirmar uso ininterrupto desde os hasmoneus, Herodes ou os romanos até o Mandato Britânico. Amit e Gibson avaliam que o Aqueduto Inferior ficou abandonado depois de 70 d.C., até ser reconstruído no período bizantino, e citam Lamentações Rabá 4:4, segundo a qual os sicários destruíram o aqueduto que vinha de Etam.
Outra confusão é com Pilatos. Josefo conta que o governador usou dinheiro sagrado do Templo para construir um aqueduto (Guerra dos Judeus 2.175-177; Antiguidades 18.60). Mazar associou essa obra ao ramal de Arrub, que abastece as Piscinas de Salomão por outro caminho, e não ao Aqueduto Inferior. Amit e Gibson lembram que nem isso é certo.
Por fim, “do tempo de Jesus” é uma descrição razoável da época de uso, mas não resolve a data de fundação, que continua aberta.
O destino do trecho e o que falta saber
A IAA e a Autoridade de Terras planejam preservar o trecho e integrá-lo à entrada principal do bairro, de modo que possa ser visto de todos os lados. Re’em fala em um parque contínuo, em parceria com a prefeitura, para caminhar do sul de Jerusalém à Cidade Velha. Segundo o Times of Israel, o bairro ligaria Ramat Rachel a Giv’at HaMatos e Har Homa e bloquearia uma expansão contígua entre Jerusalém Oriental e Belém, o que desagrada a organizações internacionais.
Do lado científico, a lista de perguntas é concreta: qual é a data absoluta do primeiro canal, se as camadas de reboco deste trecho permitem uma resposta, e quanto do percurso de 21 quilômetros ainda existe sob a cidade moderna. Até agora, a informação pública vem de um comunicado e de entrevistas. Um relatório técnico do trecho de Ramat Rachel não foi localizado.
Fotografia histórica da coleção Matson, da Biblioteca do Congresso: o aqueduto de Wadi el-Biyar chega à piscina superior das Piscinas de Salomão, de onde saem os canais para Jerusalém. Foto: Matson Collection, domínio público, Wikimedia Commons