Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Arqueólogos da Universidade Ca’ Foscari de Veneza dizem ter localizado, em Altino, no Vêneto, a provável igreja do bispo da antiga cidade romana e o que seria o palácio dele. O anúncio foi feito em 15 de outubro, com base em escavações de setembro e outubro de 2026, somadas a evidências reunidas em 2025.
O tamanho real da notícia é este: um comunicado da universidade com uma hipótese de identificação, que a própria equipe chama de provável. Não encontrei artigo científico publicado nem comentário público de especialista de fora do projeto. A reportagem do Christian Post, que circulou com a frase “conhecida só por cartas”, resume bem o comunicado, mas não traz voz independente.
Uma sala de 30 por 20 metros sob a estrada de Sant’Eliodoro
O edifício é uma sala retangular de cerca de 30 por 20 metros, sem abside, voltada para o leste, fundada entre o fim do século IV e a primeira metade do V. Fica quase em frente ao antigo museu de Altino, num bairro da época de Augusto reorganizado como quarteirão paleocristão, ao longo da via que levava ao porto e ao canal Sioncello. Segundo o comunicado, a estrada provincial que leva o nome de Santo Eliodoro, forma italiana de Heliodorus, corta a igreja ao meio.
No lado leste, a equipe identificou um grande edifício com pórtico, divisórias internas e anexos, que propõe reconhecer como palácio do bispo. A força das fundações sugere dois andares: em cima a residência do clero e, no térreo, talvez sepulturas privilegiadas de bispos ou notáveis, como indicam restos de mosaicos tardo-antigos. O batistério ainda não apareceu.
Um detalhe chama atenção. As fundações reaproveitam pedras de pavimentação de estradas romanas, de traquito, uma rocha vulcânica dura, assentadas de cabeça para baixo. A lei romana protegia as estradas como infraestrutura pública, e os pesquisadores veem no reuso um sinal de que o bispo tinha considerável autoridade pública na cidade.
O que Jerônimo escreveu a Heliodoro em 396
A igreja entra na história por uma carta. A Carta 60 de Jerônimo consola seu velho amigo Heliodoro, então bispo de Altino, pela morte do sobrinho Nepociano, vítima de febre. A tradução inglesa no New Advent data o texto de 396.
Heliodoro não era um desconhecido para Jerônimo. Foi soldado, e pertenceu a um grupo de amigos reunido em Aquileia por volta de 372 para estudar as Escrituras e praticar o ascetismo, do qual faziam parte Jerônimo e Cromácio. Acompanhou Jerônimo na primeira viagem ao Oriente e, ao voltar, tornou-se bispo de Altino, participando do Concílio de Aquileia, em 381.
No elogio ao sobrinho, Jerônimo descreve o zelo do jovem presbítero com a igreja: manter o altar limpo, as paredes sem fuligem, o pavimento varrido, os véus das portas no lugar e os vasos brilhando. O texto cita altar, paredes, pisos, portas e vasos sagrados. Segundo o próprio texto, Nepociano também enfeitou as basílicas da igreja e os salões dos mártires com desenhos de flores, folhagens e gavinhas de videira. Para o elogio, Jerônimo recorre a Bezalel, o artesão do tabernáculo em Êxodo 31:2-3.
A carta, portanto, confirma que Altino tinha bispo, clero e edifícios de culto. Segundo um resumo da história de Altino, ela menciona várias igrejas e santuários de mártires. Não traz planta, medidas nem localização, e é aí que a identificação encontra seu limite.
Como a equipe chegou à igreja: valas de saque e fundações de estrada
Altino foi apagada duas vezes. A agricultura industrial removeu as camadas superficiais, e a retirada sistemática de tijolos e pedras abasteceu obras em Torcello e Veneza. Raramente se encontram paredes de pé. O que sobra são as valas abertas para arrancar material, que guardam o contorno do edifício desaparecido como uma impressão em negativo.
A hipótese nasceu de uma revisão dos dados de época romana e tardo-antiga, feita pelos responsáveis de campo Jacopo Paiano e Eleonora Delpozzo, a partir do arquivo do parque arqueológico. Partes do complexo já tinham aparecido em escavações dos anos 1980 e antes, e a equipe diz ter conectado as evidências dispersas por uma análise mais ampla das fundações e das camadas abaixo delas.
A datação se apoia em materiais recolhidos nas valas de saque e numa avaliação do bairro ao redor. Não há, até onde o comunicado informa, datação por radiocarbono do edifício. Um pórtico e um cemitério de tumbas forradas de tijolo, dos séculos VI e VII, ficam diante da fachada. A antropóloga Barbara Bramanti, da Universidade de Ferrara, estuda os restos humanos, e a ceramista Francesca Mombelli, da Universidade do Salento, analisa a cerâmica.
Onde a manchete exagera
A frase “igreja só conhecida por cartas, agora identificada” soa mais firme do que o material permite. Há quatro pontos a pesar.
Primeiro, o verbo. A universidade diz ter identificado a igreja “com ótima probabilidade”. O diretor da escavação, Diego Calaon, afirmou: “Written sources told us they must have existed; now we have archaeological evidence to support this”, na tradução do comunicado. A legenda da foto do próprio Christian Post vai além e diz que seria provavelmente a primeira igreja da laguna veneziana, se a cronologia do século V for confirmada.
Segundo, não há inscrição ou achado que nomeie o edifício. A identificação como igreja episcopal vem do tamanho, da orientação a leste, da posição no bairro e da data.
Terceiro, a janela cronológica é larga. A fundação vai do fim do século IV à primeira metade do V. A carta é de 396. O edifício pode ser o que Jerônimo conheceu, mas pode também ser posterior a ele ou ter substituído uma igreja anterior.
Quarto, a própria literatura científica anterior era prudente. Um artigo acadêmico mais antigo sobre Altino, com modelos digitais de terreno, escrevia que sobre a localização do centro episcopal só se podiam fazer hipóteses, e supunha que os vestígios podiam ter se perdido em transformações agrícolas modernas. A escavação de 2026 muda esse quadro, mas ainda como proposta a ser testada.
A co-diretora, Elisa Possenti, da Universidade de Trento, diz que o achado ajudará a reler os primeiros bispos de Altino, cujas histórias estão em grande parte envoltas em lenda. A diretora dos Museus Arqueológicos Nacionais de Veneza e da Laguna, Marianna Bressan, é parceira institucional do projeto e, por isso, não conta como voz independente.
De Altino a Torcello: uma mudança planejada, não uma fuga
O comunicado dá peso a outra conclusão. A tradição conta que a nobreza de Altino fugiu de invasões bárbaras. As escavações da Ca’ Foscari em Torcello mostram que a ilha servia de porto de Altino, e ali se ergueu um novo edifício religioso no século VII. Para a equipe, a transferência da sede episcopal parece uma decisão deliberada, movida sobretudo por fatores demográficos e ambientais, e a igreja de Altino foi desmontada peça por peça até a primeira metade do século VII.
Isso combina, segundo os arqueólogos, com a inscrição de Torcello de 639. Pela antiga inscrição, a catedral de Torcello foi fundada pelo exarca Isaac de Ravena em 639. Calaon resume a leitura como uma “transformação longa e governada”, e não uma fuga repentina. É uma interpretação histórica da equipe, apoiada em Torcello, e que depende de a igreja de Altino ser mesmo a episcopal.
O que isso diz a quem lê a Bíblia, e o que vem agora
O Novo Testamento não fala de catedrais. As primeiras comunidades se reuniam em casas, como em Romanos 16:5 e Filemom 1:2, e a palavra “igreja” em Mateus 16:18 designa gente, não prédio. Já os “bispos” (episkopoi) aparecem em Filipenses 1:1, 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9 como supervisores de comunidades. Em Altino, no fim do século IV, o quadro é outro: um bispo com palácio, clero residente e capacidade de mexer em ruas romanas. O achado, se confirmado, mostra em pedra essa mudança.
Há também o vínculo com o texto bíblico em si. Heliodoro e Cromácio acompanharam Jerônimo de longe. Interessaram-se pela tradução das Escrituras e escreviam com frequência para exortá-lo a concluir a obra. A Vulgata, portanto, tem um pouco de Altino. Na Carta 60, Jerônimo sustenta o consolo em passagens como 1 Tessalonicenses 4:13 e João 11:11, ao tratar a morte como sono.
Quanto ao que vem pela frente, o comunicado prevê análise sistemática dos achados e dos restos humanos, datação por radiocarbono e prospecção geofísica nas áreas não escavadas do quarteirão, em busca do batistério e do restante do complexo. Esses dados dirão se a data do edifício se aproxima de 396 e quantas pessoas foram sepultadas ali. Só depois disso a hipótese poderá ser avaliada por quem não participou da escavação.
A linha do tempo conhecida é curta. Por volta de 372, o grupo de Aquileia se forma. Em 381, Heliodoro participa do concílio. Em 396, Jerônimo escreve a Carta 60. Entre o fim do século IV e a primeira metade do V, segundo a equipe, ergue-se a igreja. Nos séculos VI e VII, surgem o pórtico e o cemitério. Até a primeira metade do VII, o edifício é desmontado. Em 639, a inscrição de Torcello. Nos anos 1980, partes do complexo aparecem sem ser reconhecidas. Em 2025 e 2026, a revisão dos dados e as novas campanhas levam à hipótese anunciada em outubro.
A Ca’ Foscari anunciou em 15 de outubro de 2026 uma sala retangular de cerca de 30 por 20 metros, sem abside, voltada a leste, com fundações do fim do século IV ou da primeira metade do V.
Ao lado há um grande edifício com pórtico, interpretado como provável palácio do bispo, com fundações feitas de pedras de estradas romanas.
A Carta 60 de Jerônimo, de 396, trata de Heliodoro, bispo de Altino, e do cuidado do sobrinho Nepociano com a igreja.
O que ainda não se sabe
Se este é o mesmo edifício que Jerônimo conheceu: a datação vai até a primeira metade do século V e nenhum achado nomeia a igreja.
Onde está o batistério e qual era a planta completa do complexo.
O número de sepultados e as datas de radiocarbono, ainda por fazer.
Como especialistas de fora da equipe avaliam a hipótese: não há artigo publicado.