Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
A Biblical Archaeology Society publicou em 29 de outubro de 2026 um texto de divulgação sobre Ebede-Meleque, o oficial da corte de Zedequias que, segundo o Livro de Jeremias, tirou o profeta de uma cisterna lamacenta durante o cerco babilônico a Jerusalém. A autora é Robin Gallaher Branch, doutora em Estudos Hebraicos pela Universidade do Texas em Austin. , publicada na seção .
Não é uma descoberta nem um estudo revisado por pares: é uma leitura do texto bíblico
O personagem merece apuração mesmo assim. Ele aparece em poucos versículos, é identificado como cuxita, isto é, vindo da região ao sul do Egito, e é um dos raros estrangeiros que a narrativa daqueles dias apresenta de forma inteiramente positiva. Este texto separa o que a Bíblia diz, o que a arqueologia comprova sobre o cenário e o que segue sem resposta.
O oficial que falou quando os nobres calaram
O episódio está em Jeremias 38:7-13, com um complemento em Jeremias 39:15-18. A BAS descreve Ebede-Meleque como oficial de Judá que a Bíblia identifica como cuxita e situa o cerco babilônico a Jerusalém por volta de 588 a 586 a.C. Jeremias pregava que quem ficasse na cidade morreria pela espada, pela fome e pela peste, e que quem se rendesse aos caldeus viveria (Jeremias 38:2-3). Quatro homens, Sefatias, Gedalias, Jucal e Pasur, ouviram essas palavras e pediram ao rei a morte do profeta, sob o argumento de que ele desanimava os soldados (Jeremias 38:4).
Zedequias respondeu que o rei nada podia contra eles. Jeremias foi baixado com cordas à cisterna de Malquias, no pátio da guarda, onde não havia água, só lama, e afundou nela.
Ebede-Meleque, o cuxita, oficial na casa do rei, foi falar com Zedequias, que estava na Porta de Benjamim. Disse que aqueles homens haviam feito o mal ao profeta e que ele morreria de fome, pois não havia mais pão na cidade. O rei mandou que levasse trinta homens e tirasse Jeremias antes que morresse.
O detalhe seguinte é o que dá humanidade à cena. Ebede-Meleque foi a um depósito da casa do rei, pegou trapos e roupas gastas e desceu-os a Jeremias com cordas. Disse ao profeta que os pusesse sob as axilas, entre a pele e as cordas, e só então os homens o puxaram para fora. Jeremias continuou no pátio da guarda.
O capítulo 39 fecha o episódio com uma promessa. Ebede-Meleque não seria entregue aos homens que temia nem cairia à espada, e teria a vida como despojo de guerra, “porque confiaste em mim” (Jeremias 39:15-18). O próprio texto informa que a palavra foi dada quando Jeremias ainda estava preso no pátio da guarda, ou seja, antes da queda da cidade, embora o relato a coloque depois dela. A BAS observa que a promessa lembra a feita ao escriba Baruque, em Jeremias 45.
Um cuxita na corte de Judá
Cuxe, que as fontes egípcias chamam Kush, correspondia ao norte do atual Sudão e ao sul do Egito, a Núbia dos egiptólogos. Não deve ser confundida com a Etiópia moderna, bem mais ao sul, no Chifre da África, adverte Kevin Burrell, professor de Antigo Testamento, em artigo no ANE Today. Por isso traduções tradicionais, como a King James, trazem “etíope” onde outras trazem “cuxita”.
Segundo Burrell, a Bíblia cita os cuxitas 54 vezes, quase sempre em contexto militar. Jeremias 46:9, por exemplo, menciona guerreiros cuxitas nos exércitos egípcios. Os cuxitas conquistaram o Egito e fundaram a 25ª dinastia, que durou cerca de cem anos a partir de meados do século VIII a.C. Taharqa, o “Tiraca, rei de Cuxe” de 2 Reis 19:9, marchou com seu exército contra a Assíria em defesa de Ezequias, em 701 a.C. Há evidências iconográficas, arqueológicas e textuais de soldados cuxita-egípcios defendendo cidades judaítas como Laquis na mesma época.
Isso mostra que a presença de africanos do Nilo em Judá não seria estranha. Não explica, porém, como Ebede-Meleque chegou a Jerusalém mais de cem anos depois da campanha de Taharqa. O texto não diz. A BAS pergunta se ele foi mercenário, conselheiro, servo ou talvez prosélito, e lembra que a Bíblia costuma dar apenas a informação que serve ao tema do livro. Nenhuma dessas hipóteses tem apoio em documento: são perguntas.
Nome, título e eunuco: o que o hebraico deixa em aberto
O nome significa “servo do rei”, e os estudiosos discordam se essa combinação é um título ou um nome pessoal. A dúvida é antiga. O Targum traduziu o nome como “servo do rei Zedequias”, e comentaristas posteriores chegaram a fazer do próprio Zedequias o “etíope”. A Jewish Encyclopedia registra que o Talmude adotou essa leitura (Moed Qatan 16b). Outra tradição, no Pirkê de-Rabi Eliezer, o identifica com Baruque, filho de Nerias. São leituras rabínicas, não evidência histórica, mas mostram que a ambiguidade não é invenção moderna.
Há também a questão do “eunuco”. O termo hebraico pode designar um eunuco ou, em sentido mais amplo, um oficial de corte. A NVI traduz “oficial”; a King James, “um dos eunucos”. A BAS remete ao comentarista J. Andrew Dearman para a dupla possibilidade. Keil e Delitzsch, no século XIX, argumentaram que, como o rei tinha muitas esposas, um eunuco no comando do harém não surpreenderia.
Entra ainda a crítica textual. Segundo Emanuel Tov, o texto grego, que ele considera o original, não chama Ebede-Meleque de eunuco. O Jeremias da Septuaginta é cerca de um oitavo mais curto que o hebraico massorético, e os manuscritos de Qumran trazem a forma curta e a longa. A maioria dos estudiosos entende que o hebraico por trás da versão grega é mais antigo que o texto massorético. Na leitura de Tov, a menção ao eunuco pertenceria só à edição hebraica mais longa. É uma hipótese sobre a história do texto, e o debate continua.
O número de homens também varia: as traduções oscilam entre três e trinta, e a Jewish Encyclopedia lembra que Ewald e Duhm preferiam “três”.
O que a arqueologia tem e o que não tem
Em nossa apuração, não encontramos selo, ostracon ou inscrição que cite esse Ebede-Meleque. A Jewish Encyclopedia observa que o nome ocorre em uma inscrição fenícia (CIS I 46), o que indica que o tipo de nome existia no mundo semítico, não que se trate do mesmo homem.
O que existe são selos de argila, as bulas, de pessoas que o capítulo 38 menciona. Em 2005, escavações na Cidade de Davi revelaram uma bula com a inscrição “de Jeucal, filho de Selemias, filho de Sobi”. Em 2008, Eilat Mazar achou outra, com o nome de Gedalias, filho de Pasur, na mesma camada e a poucos metros da primeira. Os dois nomes constam em Jeremias 37:3 e 38:1, e os dois homens estavam entre os que pediram ao rei a prisão do profeta. Mazar disse que a bula de Jeucal surgiu dentro da estrutura do palácio e a de Gedalias fora da muralha, ao pé do mesmo ponto, segundo o blog BiblePlaces.
Há ressalvas. Os nomes eram comuns: Jeucal também aparece em Tell es-Safi e em uma das cartas de Arade. O BiblePlaces, que noticiou o achado de 2008, lembrou que Mazar já tivera de se retratar por ler uma inscrição ao contrário depois de anunciar depressa demais um selo anterior, e criticou a projeção de arqueólogos com base em identificações sem revisão por pares, mas ressalvou que o novo selo não fazia parte da controvérsia. Além disso, Mazar acreditava que a Grande Estrutura de Pedra, junto da qual os selos apareceram, podia ser o palácio de Davi, identificação que outros pesquisadores contestam, sugerindo que seria um edifício jebuseu.
O que se pode afirmar com cautela é que os selos mostram uma administração em Jerusalém na qual circulavam homens com esses nomes e patronímicos, na época que o livro descreve. Não provam que Ebede-Meleque existiu, e também não o contradizem. Poucos metros abaixo na encosta, Yigal Shiloh havia encontrado um arquivo de mais de cinquenta bulas, entre elas a de Gemarias, filho de Safã (Jeremias 36), funcionário mais favorável a Jeremias.
Por que a história pesa para quem lê a Bíblia
Para Burrell, o texto hebraico avalia os povos estrangeiros por critério moral e teológico, não étnico: o que conta é a resposta a Deus. Ele cita Amós 9:7, Sofonias 3:10, Salmos 68:31 e Isaías 18:7, passagens em que Cuxe aparece sob juízo e também sob promessa de salvação. Ebede-Meleque se encaixa nessa moldura. Num capítulo em que os nobres de Judá agem pela força e o rei cede, é um estrangeiro quem se opõe, e é a ele que Jeremias 39:18 atribui confiança em Deus.
Muitos estudiosos traçam um paralelo com o outro eunuco cuxita da Bíblia, o de Atos 8:26-40. Deusdedit Musinguzi, autor de uma monografia sobre a passagem, vê em Ebede-Meleque um modelo de compaixão, justiça e coragem, e o artigo da First Things chama o etíope de Atos de um Ebede-Meleque tardio. É uma leitura teológica, não uma ligação histórica comprovada.
A tradição posterior fez dele herói de lendas. Em “O Resto das Palavras de Baruque”, publicado em grego por J. Rendel Harris em 1889, Ebede-Meleque dorme sob uma árvore durante 66 anos, e os figos que levava continuam frescos. Fontes rabínicas o contam entre os que entraram vivos no paraíso, e uma lenda etíope o faz dormir setenta anos. Nenhum desses relatos é histórico, mas mostram quanto o episódio marcou a imaginação de judeus e cristãos.
A discussão tem, portanto, camadas: o Targum e o Talmude, a edição de Harris em 1889, a Jewish Encyclopedia de 1901 a 1906, o artigo de Tov na Bible Review em 2000, o livro de Ronnie S. Sadler Jr. sobre raça e alteridade na Bíblia em 2005, as bulas de 2005 e 2008, os estudos de Burrell em 2020 e agora o texto da BAS.
Onde a leitura popular passa do ponto
O primeiro cuidado é com o rótulo de novidade. Não há achado novo, escavação nova nem estudo novo: há uma releitura de versículos antigos. O segundo é a palavra “etíope”, que leva muitos leitores a pensar na Etiópia atual, quando a Cuxe antiga era outra coisa. O terceiro é a condição social: textos devocionais costumam chamá-lo de escravo, e a Bíblia diz apenas que ele era oficial na casa do rei.
Há ainda a imagem que abre o texto da BAS. A legenda a identifica como “A Destruição do Templo de Jerusalém”, de Francesco Hayez, 1867. A tela retrata a destruição do Segundo Templo pelo exército romano na Grande Revolta Judaica, no ano 70 d.C., e não o cerco babilônico em que Ebede-Meleque atuou, mais de seis séculos antes.
Por fim, algumas passagens do artigo são interpretação da autora, não dado do texto. A cena na Porta de Benjamim como possível audiência de rotina e a frase final, que o coloca como mais régio que o rei, são leituras legítimas, mas o que o hebraico registra é mais sóbrio: um oficial estrangeiro, uma cisterna, trapos, cordas e uma promessa.