Preso em uma cela de segurança máxima na Prisão do 10º de Ramadan, a cerca de 50 quilômetros do Cairo, o egípcio Said Mansour Rezk Abdelrazek enfrenta a ameaça iminente de execução. Portador de um stent no coração e debilitado por meses de maus-tratos, ele ouviu dos advogados de defesa o parecer dos promotores de seu país: a acusação formalmente solicitou a pena de morte ou 25 anos de prisão por acusações de desacato ao islã e ligação com terrorismo.
Abdelrazek, que se converteu do islã ao cristianismo, foi detido em julho de 2025 pelas autoridades egípcias. Desde então, sua rotina tem sido marcada pelo confinamento sob acusações sigilosas e pela recusa transigente em abandonar a fé cristã. Segundo a banca de advogados liderada pelo jurista Said Fayez, que assumiu a defesa do convertido, as acusações fabricadas incluem a liderança de uma organização terrorista fictícia, recurso jurídico frequentemente utilizado no Egito para justificar a pena máxima contra dissidentes e convertidos.
Questions raised in the UK Parliament over the imprisonment of Said Abdelrazek in Egypt. (credit: @DavidAltonHL/X/Twitter/27a)
O que se sabe
Said Abdelrazek está detido na Prisão do 10º de Ramadan desde julho de 2025.
A promotoria egípcia pediu formalmente a pena de morte ou 25 anos de prisão.
A defesa acusa o Estado de aplicar tortura física e negar atendimento médico a um cardíaco.
O tribunal adiou a audiência de alegações finais da defesa para 8 de dezembro de 2026.
O que ainda não se sabe
Qual será a decisão final do juiz na audiência de dezembro de 2026.
Se o governo do Egito responderá às pressões internacionais feitas pelo Reino Unido e Estados Unidos.
A trajetória jurídica de Abdelrazek reflete a severidade com que o sistema estatal egípcio trata os cidadãos muçulmanos que optam por seguir a fé cristã. Em 2023, ele fora detido pela primeira vez sob a alegação de ter publicado vídeos na internet que supostamente mostravam a profanação do Alcorão. Cumprida a pena de um ano de reclusão, Abdelrazek buscou refúgio na Rússia, na esperança de obter asilo político. O pedido, contudo, foi rejeitado pelas autoridades russas, culminando na sua deportação de volta ao Egito.
Ao retornar ao país de origem em 2024, o egípcio sofreu uma nova detenção de curta duração. A pressão estatal recrudesceu em abril de 2025, quando Abdelrazek passou a publicar em redes sociais depoimentos pessoais sobre sua conversão ao cristianismo e iniciou os trâmites burocráticos para alterar legalmente seu status religioso nos documentos de identidade oficiais. No Egito, a conversão do cristianismo para o islã é incentivada e simplificada pelo estado, mas o caminho inverso enfrenta barreiras jurídicas quase intransponíveis, deixando o convertido desprovido de amparo civil.
Em julho de 2025, os agentes de segurança do estado prenderam Abdelrazek novamente. Desta vez, contudo, as acusações formais escalaram. A organização não governamental Coptic Solidarity informou que os promotores o enquadraram por desacato ao islã, incitação à desordem pública, disseminação de informações falsas e integração a grupo terrorista banido, acusação esta que abre brecha legal para a aplicação da pena capital.
Tortura na prisão e denúncias de negligência médica
Além da severidade das acusações, a equipe jurídica encarregada da defesa denunciou abusos físicos graves cometidos contra o prisioneiro. De acordo com os relatos apresentados pelo escritório de Said Fayez, Abdelrazek tem sido mantido em condições desumanas dentro do complexo prisional do 10º de Ramadan. Os advogados afirmam que ele foi submetido a sessões de tortura física, inclusive amarrado na posição de crucificação, durante as quais os interrogadores exigiram que ele renunciasse publicamente à fé em Cristo.
Os relatos apontam também negligência médica sistemática. Mesmo portando um stent cardíaco e apresentando complicações de saúde decorrentes do isolamento e das agressões, o convertido teve assistência médica negada. A defesa sustenta que a acusação de liderar uma organização inexistente visa apenas mascarar a verdadeira motivação do processo judicial: a punição exemplar por ter se declarado cristão e a tentativa de forçar sua retratação espiritual.
A lei de blasfêmia e o peso sobre os convertidos
O caso de Abdelrazek insere-se em um contexto mais amplo de restrições à liberdade religiosa no Egito. Embora a Constituição egípcia garanta formalmente a liberdade de crença, o Código Penal pune severamente o chamado desacato às religiões monoteístas. Na prática, tais dispositivos legais costumam ser aplicados contra minorias e, com especial rigor, contra ex-muçulmanos que abraçam o cristianismo, os quais enfrentam também a rejeição familiar e a marginalização social.
Para a comunidade cristã local, o sofrimento de convertidos sob custódia estatal evoca as exortações apostólicas registradas nas Escrituras. As cartas do Novo Testamento frequentemente lembram os fiéis sobre o custo do testemunho público. Em 2 Timóteo 4:7-8, o apóstolo Paulo escreve sobre a perseverança diante das tribulações da vida terrena: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada". É esse mesmo princípio de fidelidade inegociável que a defesa de Abdelrazek relata ver na atitude do ex-muçulmano perante o tribunal.
A reação internacional e os próximos passos no tribunal
A escalada do caso chamou a atenção de diplomatas e parlamentares estrangeiros. No Reino Unido, Lord David Alton confirmou ter levado a situação de Abdelrazek ao debate público no Parlamento Britânico, cobrando posicionamento oficial sobre a perseguição sofrida pelo convertido egípcio. Nos Estados Unidos, o Departamento de Estado já havia manifestado preocupação ao Congresso americano a respeito das prisões arbitrárias e acusações de heresia no Egito.
Após a audiência realizada em novembro de 2026, na qual os promotores reiteraram o pedido de pena de morte ou 25 anos de reclusão, a Justiça egípcia concedeu um prazo para a preparação do caso. O tribunal determinou o adiamento da sessão para 8 de dezembro de 2026, data em que os advogados de defesa terão a oportunidade de apresentar formalmente suas alegações finais e tentar barrar a condenação máxima.
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