Jovem de 18 anos carrega cruz de 35 kg até o pico Aneto, nos Pirineus, depois que a original foi serrada e a nova, derrubada
Maël Le Lagadec, aprendiz de paisagista de Montauban, levou 15 horas para subir a 3.404 m. A Guardia Civil investiga o corte da cruz histórica de 1951.
Eram cerca de 15 horas de subida, com neve, neblina e 4 graus negativos, quando Maël Le Lagadec atravessou o Paso de Mahoma, a aresta estreita que antecede o cume do Aneto. Ele tinha 18 anos e levava uma cruz nas costas. A cruz era de nogueira, pesava 35 quilos e subiu até 3.404 metros, o ponto mais alto dos Pirineus.
O aprendiz de paisagista de Montauban, no sul da França, fez a subida em 9 de maio para ocupar o lugar de outra cruz. A cruz de ferro que coroava o pico havia sido cortada com uma esmerilhadeira e jogada ladeira abaixo em abril. Depois disso, a cruz dele também foi derrubada, recolocada por montanhistas espanhóis e, mais tarde, substituída por uma segunda, de pícea. A Guardia Civil espanhola ainda não apontou responsáveis.
A cruz original era de ferro, tinha cerca de três metros e perto de 100 quilos. Foi instalada em 1951 pelo Centre Excursionista de Catalunya e virou referência para gerações de montanhistas do Pirineu aragonês. Resistiu a ventanias que a arrancaram nos anos 1960 e em 1999, e a uma pintura amarela em outubro de 2018.
Em setembro de 2023, foi retirada do cume por causa do desgaste de mais de sete décadas de exposição. Foi restaurada pelo ferreiro Miguel Ángel Plaza e voltou ao Aneto em agosto de 2025, numa operação com especialistas do GREIM e da Unidade Aérea da Guardia Civil. O GREIM é o grupo de resgate em montanha do corpo, sediado em Benasque.
Em meados de abril, guias e montanhistas avisaram a prefeitura de Benasque de que ela não estava mais lá. A prefeitura repassou o aviso ao GREIM, e as primeiras apurações apontaram ação intencional. A Guardia Civil abriu investigação para esclarecer se foi roubo ou vandalismo.
35 quilos nas costas
Maël vive em Montauban, cursa o quarto ano de formação em alternância como paisagista e pratica alpinismo só desde o outono de 2025. Soube do corte pelas redes sociais. “Em vez de simplesmente me irritar como todo mundo nas redes sociais, eu ia agir”, contou à Aleteia.
Segundo a Aleteia, cresceu numa família católica, mas pouco praticante. Ao jornal La Dépêche, de acordo com o El Confidencial Digital, disse que, embora batizado, não se considera crente, mas que a cruz faz parte da paisagem e merece respeito. À Aleteia, resumiu o que a cruz significa no alto de uma montanha: para os crentes, ela protege o vale; para os alpinistas, é também um ponto de referência, porque indica o objetivo que a pessoa se deu.
Sozinho, fez uma cruz de nogueira de 1,10 metro de altura por 70 centímetros de largura e a envernizou para a alta montanha. Saiu à meia-noite de 9 de maio do estacionamento do Hospital de Benasque, com o amigo Julien Benazet Arrieudebat, aproveitando o gelo da madrugada para andar na neve. O amigo era novato, e Maël não quis que ele carregasse a cruz. Com o equipamento de alpinismo, eram cerca de 50 quilos nas costas durante mais ou menos 15 horas.
Pelo caminho, outros alpinistas paravam para olhar. Uma mulher lhe emprestou o bastão. Um deles perguntou, com um sorriso, se ele sabia quem tinha feito aquilo antes dele. “Não”, respondeu Maël, exausto. “Pois foi Jesus!” Ele se lembrou então da via-sacra. O Evangelho de João conta que Jesus saiu carregando a própria cruz até o lugar chamado Caveira, em hebraico Gólgota (João 19:17).
No cume, com neblina e 4 graus negativos, Maël cavou 40 centímetros na neve com o piolet para firmar a cruz de forma provisória. Disse que voltaria dias depois para selá-la.
Derrubada, recolocada, desaparecida
Duas semanas depois, a cruz de nogueira foi encontrada virada, em contrabaixo, em 22 de maio, semienterrada na neve, na crista de Llosas, segundo o elDiario.es. No domingo, 24 de maio, dois alpinistas espanhóis a levaram de volta ao cume e a recolocaram no pé. Segundo o Aragón Digital, outros montanhistas ajudaram a carregá-la.
No fim de junho, ela sumiu de novo. Um amigo subiu o Aneto e não a viu, e mandou vídeos. “Não era possível que fosse o clima”, contou Maël à Aleteia. “Entendi que era intencional.” Desta vez, não quis divulgar. “Se alguém é tão obstinado, eu também vou ser.”
A iniciativa não foi unânime. O Movimiento Hacia un Estado Laico (MHUEL) pediu ao Seprona, o braço ambiental da Guardia Civil, e ao governo de Aragão que investigassem a instalação e, se coubesse, abrissem processo sancionador contra o jovem, segundo o elDiario.es. O coletivo argumenta que o Parque Natural Posets-Maladeta é um espaço protegido e que uma cruz pressupõe uma crença que nem todo visitante partilha. O prefeito de Benasque, Manuel Mora, viu a iniciativa com bons olhos. Disse à COPE que a cruz de madeira não substituiria a original e ficaria de forma provisória.
A segunda cruz, de pícea, e 39 quilômetros
Em julho, Maël refez a cruz em pícea. Ela tem cerca de 15 quilos, foi envernizada e recebeu ferros chatos que ele mesmo dobrou, além de uma pequena montanha desenhada com a palavra “Aneto”. Escolheu o caminho mais duro. A subida começou no Hospice de France, do lado francês, e somou 39 quilômetros, com cerca de 4.000 metros de desnível positivo, ao lado de um amigo, Nathan.
“Pensaram que eu estava brincando quando disse que subiria quantas vezes fosse preciso para reinstalá-la”, escreveu nas redes sociais depois da subida. No caminho, um montanhista que o filmava comentou, segundo o Aragón Digital, que aquilo servia para mostrar que ainda há esperança no mundo.
O que a Guardia Civil encontrou, e o que falta
A cruz de ferro reapareceu por acaso. Foi localizada na terça-feira, 16 de junho, às 16h15, durante uma operação de resgate da Guardia Civil na região. Os agentes avistaram do ar um objeto semienterrado na neve, ao pé de uma parede cerca de 200 metros abaixo do cume. O degelo a deixou à mostra. Foi içada por helicóptero e levada a Benasque, onde está sob guarda policial. Ao fim da investigação, será entregue à prefeitura, que decidirá se a recoloca no lugar original.
Em meados de outubro, os autores do corte seguiam sem identificação. A Guardia Civil localizou a cruz, mas os responsáveis por serrá-la e jogá-la ladeira abaixo ainda não foram identificados. Benasque quer devolver a cruz ao cume antes das primeiras nevascas, segundo o Lugares de Aventura, que não registra data definida para a operação. O prefeito anunciou ainda a intenção de pedir a declaração de Bem de Interesse Cultural para os símbolos do cume. Sobre a cruz de Maël, foi direto, segundo o El Debate: quando for preciso subir a original, a do jovem francês será retirada.
Maël já deixou dito o que fará se a cruz de pícea não for respeitada. “Espero que esta cruz seja respeitada”, escreveu no Instagram. “Do contrário, terei de continuar as expedições no Aneto.”