Micvê do Segundo Templo em Jerusalém: complexo de 280 m² perto do Monte do Templo tem banho preservado até o teto, a 4,2 m
Equipe da Universidade Hebraica anunciou o achado no Ofel após cinco temporadas; datação de cerca de 10 d.C. por moedas, relatório científico ainda por vir.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
A Universidade Hebraica de Jerusalém divulgou na manhã de 24 de setembro de 2026 a descoberta de um complexo de banhos rituais do período do Segundo Templo no Ofel, a área imediatamente ao sul do Monte do Templo, na Cidade Velha. Os diretores da escavação são os professores Uzi Leibner e Orit Peleg-Barkat, do Instituto de Arqueologia da universidade.
O tamanho real da notícia é este: trata-se de um achado de escavação apresentado por comunicado de imprensa e por visitas a jornalistas, não de um estudo revisado por pares. A construção em si é concreta e foi vista por repórteres no local. A função, porém, é uma interpretação dos arqueólogos: eles concluem que o conjunto servia a peregrinos que se purificavam antes de subir ao Templo, com base na localização, no tamanho e no desenho, e não em alguma inscrição que diga isso.
Os números principais: o complexo cobre cerca de 280 metros quadrados e foi construído por volta de 10 d.C., data baseada nas moedas encontradas. Um dos banhos sobrevive até a altura de cerca de 4,2 metros e conserva o teto abobadado de pedra.
The Ophel archaeological site where a monumental complex housing several Second Temple-era mikvaot were uncovered by the Hebrew University of Jerusalem (south eastern corner), September 23, 2026. (credit: Emil Sadikov) Foto: The Jerusalem Post | JPost.com
O que apareceu aos pés da escadaria do Portão Triplo
O local fica junto ao Portão Triplo, o mais oriental dos chamados Portões de Hulda, hoje lacrados na muralha sul do Monte do Templo. Segundo o Times of Israel, trata-se de infraestrutura pública feita para multidões de peregrinos, a cerca de 50 metros da entrada do Templo. Na Antiguidade, o portão se abria para uma escada subterrânea que subia direto ao meio da esplanada do Templo.
No centro está uma grande piscina revestida de reboco, de cerca de 12 por 9,5 metros, com degraus descendo pelos quatro lados. A peça tem uma ressalva importante. Leibner acredita que ela pode ter servido para purificar utensílios, e Peleg-Barkat disse ao Haaretz que provavelmente não era um micvê típico, embora possa ter purificado objetos.
A noroeste dessa piscina há uma estrutura de pedra bem aparelhada (silharia) com quatro cômodos. Três deles continham micvês, e três dos quatro cômodos tinham originalmente tetos abobadados de pedra, mas só um sobreviveu. É o que Leibner chamou de "crown jewel" do sítio, a joia da coroa, em declaração ao Times of Israel. Um poço no teto mostra por onde a água era despejada. Segundo ele, é raro em Jerusalém uma construção dessa época preservada do chão ao teto.
A explicação para a conservação é curiosa. Por volta de trezentos anos depois da destruição de Jerusalém, os bizantinos ergueram ali um bairro residencial. Em vez de demolir o banho abobadado, construíram um piso sobre ele e o converteram em cisterna. Sem querer, selaram a estrutura por mais de 1.500 anos. Acima dessa linha de micvês, disse Leibner, nada sobreviveu.
Há ainda um detalhe de uso. Uma das escadas tem uma pequena divisória no meio, o que, segundo os pesquisadores, sugere controle de fluxo: pilgrims podiam entrar por um lado e sair pelo outro. A lógica, explicou Leibner, é que quem já se imergiu não deve tocar em quem ainda não o fez.
Members of the Hebrew University of Jerusalem's archaeology team standing in front of the vaulted mikvah, September 23, 2026. (credit: Aubrey Mercado) Foto: The Jerusalem Post | JPost.com
Como se chegou à data e à função
A datação vem das moedas. A construção foi situada por volta de 10 d.C. com base em achados numismáticos. O fim também está nas moedas: o complexo caiu em desuso durante o clímax do cerco de Jerusalém, em 70 d.C., com desabamentos, camadas de cinza e dezenas de moedas do período da Grande Revolta. Entre elas, segundo a equipe, há um meio-siclo de prata do terceiro ano da revolta.
A equipe também encontrou um complexo anterior sob o monumental. Abaixo dele havia restos de um conjunto público mais antigo, também de pedra aparelhada, com um grande banho ritual, aparentemente do século I a.C. Leibner admitiu que a data exata não é conhecida: disse que provavelmente é do fim do período hasmoneu ou do início do reinado de Herodes. Os arqueólogos chegaram a ele ao notar danos nos túneis de drenagem, causados, na leitura deles, por antigos escavadores que cortaram suas paredes.
A interpretação de "banhos para peregrinos" repousa em três pilares: a posição ao pé da escada de um dos principais acessos ao Templo, a escala e a qualidade da obra, e o sistema de drenagem. Nenhum deles é uma prova direta de quem usou os banhos. É o tipo de inferência comum em arqueologia, e por isso convém tratá-la como a explicação mais provável, e não como fato demonstrado.
Silver half-shekel from the third year of the First Jewish Revolt found at the Ophel archaeological site, September 23, 2026. (credit: Tal Rogovski) Foto: The Jerusalem Post | JPost.com
Água corrente e uma pergunta que continua aberta
O traço mais incomum é a drenagem. Os banhos estavam ligados por um complexo subterrâneo de drenagem cujas paredes passavam de dois metros de altura. Os túneis levam a água até o vale do Cedrom. Leibner contou que todos os banhos têm um furo no piso, "com um plugue, como uma banheira moderna".
Isso importa porque micvês comuns acumulavam água da chuva. Aqui, as dimensões indicam que muita água passava pelo sistema, o que sugere uma fonte permanente de água corrente, possivelmente um ramal do aqueduto que abastecia o Monte do Templo. A hipótese de Leibner é que a água viesse do aqueduto das montanhas de Hebrom, passando pelos Tanques de Salomão. Ele reconhece o limite: o aqueduto chegava ao Monte do Templo no fim do período, mas a equipe ainda não identificou o trajeto completo do canal que levava a água até essas piscinas.
Para o leitor da Bíblia, a água corrente tem peso próprio. A tradição rabínica, registrada na Mishná, classifica graus de pureza da água, e a de fonte ou de curso corrente fica no topo. O desenho do complexo se encaixa nessa preocupação, mas é a equipe, não o texto bíblico, que faz essa ponte.
O que a Bíblia diz sobre purificação e peregrinação
A Lei de Moisés prevê lavagens antes de se aproximar do sagrado: os sacerdotes se lavavam ao entrar na tenda (Êxodo 30:20), e quem ficava impuro devia lavar o corpo todo com água (Levítico 15:16). A palavra hebraica mikveh, que significa reunião de águas, aparece em Levítico 11:36.
Sobre a peregrinação, o texto-base é Deuteronômio 16:16, que manda os homens comparecerem diante do Senhor três vezes por ano: Pães Asmos, Semanas e Tabernáculos. O Evangelho de João mostra como isso funcionava no tempo de Jesus: antes da Páscoa, muita gente subia do campo a Jerusalém "para se purificar" (João 11:55). Lucas relata que os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém para a festa (Lucas 2:41), e João registra Jesus ensinando no Templo durante a Festa dos Tabernáculos (João 7:14). Mais tarde, Paulo se purificou antes de entrar no Templo (Atos 21:26).
O Ofel tem seu próprio lugar nas Escrituras: 2 Crônicas 27:3 diz que o rei Jotão construiu muito sobre o muro do Ofel. Já o Segundo Templo, remodelado por Herodes, é de outra época, e o complexo agora revelado pertence aos últimos sessenta anos de sua história.
Sobre o tamanho das multidões, os pesquisadores são cautelosos. O historiador Flávio Josefo afirma que mais de 2,7 milhões de pessoas celebraram a Páscoa em Jerusalém em 66 d.C. (Guerra dos Judeus 6.9.3). Leibner disse que o número é uma enorme exageração, mas indica que se tratava de uma reunião gigantesca. Ele acrescenta que não há, até agora, evidência física de peregrinações em massa no período do Primeiro Templo, embora o Segundo Templo tenha tradição bem documentada. Leibner também lembrou que, na época, havia uma solução rabínica segundo a qual quem chegava a Jerusalém na festa era presumido puro, e que não se sabe se os saduceus a aceitavam.
O que as manchetes exageram
Algumas chamadas ligam o achado ao "tempo de Jesus". Isso é verdadeiro apenas em sentido amplo: o complexo foi construído por volta de 10 d.C. e funcionou até 70 d.C., portanto existia durante a vida adulta de Jesus. Nenhuma das fontes da equipe diz que Jesus ou seus discípulos usaram esses banhos, e nada no achado permite afirmar isso.
Um segundo exagero vem do site Patterns of Evidence, que publicou o texto "Ritual Baths Uncovered at the Temple Mount Support the Bible". Ele sugere que os banhos explicariam como 3.000 pessoas foram batizadas no dia de Pentecostes (Atos 2:41). O próprio site apresenta isso como uma possível ligação com o nascimento da igreja. É uma hipótese de quem escreve, não da equipe de escavação, e o texto de Atos não diz onde ocorreram os batismos. O mesmo artigo fala em "centenas" de banhos rituais perto do Templo, número que não aparece nas fontes da equipe: o Instituto Armstrong cita 18 piscinas em uma área de 1.600 metros quadrados, e Leibner fala em dezenas de banhos na região.
É preciso evitar também confusão com outra notícia. Em dezembro de 2025, a Autoridade de Antiguidades de Israel anunciou um micvê escavado na rocha sob a Praça do Muro das Lamentações. É outro achado, de outra equipe, em outro ponto da Cidade Velha.
Por fim, o que falta: não encontrei, até a publicação, um especialista de fora da equipe avaliando o achado. Uma publicação anterior, de Yuval Baruch e Ronny Reich, descreveu um grande micvê na vizinhança do portão ocidental de Hulda, na chamada Área A. Como esse achado antigo se relaciona com o novo conjunto não foi detalhado nos comunicados. O Instituto Armstrong, que copatrocina a escavação e é ligado à Herbert W. Armstrong College, escreve que há "muito mais informação por vir" conforme avançam a pesquisa e as publicações.
Cinco décadas de escavação no mesmo terreno
O Ofel é terreno antigo para a Universidade Hebraica. Benjamin Mazar começou a escavar ali em 1968. O Instituto Armstrong lembra que a grande piscina de quatro lados foi vista pela primeira vez no início dos anos 1970, e que o Ambassador College enviou centenas de estudantes entre 1969 e 1976. Parte do complexo de quatro cômodos foi descoberta em 2013 e 2018, sob a direção de Eilat Mazar, neta de Benjamin, que morreu em 2021.
Leibner assumiu a área em 2022, e Peleg-Barkat se juntou em 2023. A quinta e última temporada terminou neste verão, com estudantes das universidades Hebraica, Armstrong e Yeshiva trabalhando lado a lado. A escavação é financiada pela Fundação Israelense de Ciência, pelo Instituto Armstrong e pelo Centro Hertog. O sítio está dentro do Parque Nacional das Muralhas de Jerusalém; a escavação está fechada ao público, mas o parque arqueológico pode ser visitado pelo Centro Davidson.
Os próximos passos são a publicação científica completa e a identificação da rota da água. Enquanto isso, a equipe de Yosef Garfinkel abriu uma nova frente no nordeste da mesma área.
Um complexo de cerca de 280 m², com três micvês, uma grande piscina e drenagem até o vale do Cedrom, foi escavado no Ofel, ao pé da escada do Portão Triplo.
As moedas indicam construção por volta de 10 d.C. e abandono em 70 d.C., com dezenas de moedas da Grande Revolta nos pisos.
Um dos banhos conserva o teto abobadado de pedra, a 4,2 metros de altura.
Sob o conjunto há um complexo mais antigo, provavelmente do século I a.C.
O que ainda não se sabe
Se o conjunto era mesmo usado por peregrinos, e por quais grupos: a hipótese se apoia em localização e desenho, e a própria equipe cogita um público de elite ou funcionários do Templo.
De onde vinha a água e por qual trajeto chegava às piscinas.
Para que servia a grande piscina central, que pode ter purificado utensílios.
Como o achado será avaliado por especialistas de fora: o relatório científico completo ainda não saiu.