Fábrica de púrpura de Tel Shiqmona, do tempo de Jeroboão II, também prensava azeite, tecia e abrigava rebanhos
Estudo revisado por pares analisou sedimentos do complexo do Reino de Israel em Haifa; o ciclo por estações é inferência dos autores, não leitura do solo.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Num canto de dois metros por dois do monte de Tel Shiqmona, na costa do Carmelo, em Haifa, havia uma pedra de esmagar azeitonas e um chão carregado de esterco de animais. Na sala ao lado, uma pilha de conchas trituradas de múrice, o caracol marinho de onde saía o corante azul e púrpura de reis e sacerdotes.
O que parece bagunça é, segundo um estudo revisado por pares publicado em 24 de setembro de 2026 na PLOS One, a marca de um complexo industrial que trocava de função ao longo do ano. A equipe da Universidade de Haifa propõe que a troca seguia as estações. Essa segunda parte é um modelo, não uma leitura direta do solo.
Os sedimentos mostram que o mesmo espaço serviu, em momentos diferentes, para azeite, tecelagem, abrigo de rebanhos e corante.
O sítio ocupa cerca de dois acres na periferia sul de Haifa e, segundo os autores, é a maior fábrica de púrpura da Idade do Ferro conhecida no Mediterrâneo. O nível estudado, o Estrato 11, cobre aproximadamente os anos 790 a 740 a.C., o tempo de Jeroboão II no Reino de Israel, o reino do norte.
Jarros de cerâmica de Tel Shiqmona no Museu Marítimo Nacional, em Haifa: à direita, jarro cipro-fenício do século X a.C.; à esquerda, jarro fenício do século VIII a.C. Foto: Hanay, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
Esterco, cinza e conchas: o que o microscópio leu em dois espaços minúsculos
A escavação de 2023, dirigida por Golan Shalvi, foi feita num trecho que ameaçava ruir durante obras de conservação da Autoridade de Natureza e Parques de Israel. Dali saíram 28 amostras de sedimento solto e três blocos intactos, analisados por espectroscopia de infravermelho (FTIR), micromorfologia e contagem de microrresíduos de plantas, cinzas e esterco. A análise de laboratório ficou com Isaac Ogloblin Ramírez e Madeline Jacobson. O editor do artigo na revista foi Joe Uziel, da Autoridade de Antiguidades de Israel.
No espaço leste, de dois por dois metros, a camada assentada sobre o piso de terra batida tinha até 2,53 milhões de esférulas de esterco por grama de sedimento, e a seguinte chegou a 4,48 milhões. O solo de referência, sob o piso, tinha 0,57 milhão. Essas esférulas se formam no estrume e sobrevivem por milênios. Fragmentos de matéria orgânica quebrados no lugar indicam pisoteio: havia animais ali.
As lâminas finas, de um a três milímetros, alternam esterco marrom e cinza de lenha. Os autores leem a cinza como higiene: alcalina, ela neutraliza odores e controla pragas, e teria sido espalhada antes de o espaço voltar ao trabalho. Há também sinais de fogo no próprio piso, com uma camada avermelhada, carvão e cinza por cima.
No espaço vizinho, de cerca de 3,5 por 2 metros, estavam a pilha de conchas de múrice, dezenas de caroços de azeitona não carbonizados e um peso de prensa de azeite com marcas de azeitonas. Perto dali, de escavações anteriores, vieram fragmentos de cubas de tingimento com manchas vivas de púrpura. Os resíduos de fogo, sugerem os autores, vêm do aquecimento de água a ser acrescentada às cubas, já que elas mesmas não mostram sinal de fogo direto.
O calendário é inferência: o que o estudo prova e o que ele propõe
Os próprios autores separam duas coisas. A multifuncionalidade, o uso do mesmo espaço para atividades diferentes e não simultâneas, está atestada pelos achados. A sazonalidade, a ordem dessas atividades no ano, é inferência a partir da época conhecida de cada uma. Os depósitos em si não indicam a estação; o calendário vem de fora deles.
Colher e prensar azeitona acontece de outubro a dezembro. A tecelagem segue a tosquia da primavera. O abrigo de animais ocuparia os meses ociosos, provavelmente o inverno. Com base na época conhecida de cada atividade, os pesquisadores montaram o modelo: azeite no outono, animais no inverno, tecidos na primavera.
E o corante? O resumo do artigo diz que a púrpura foi provavelmente integrada a esse ciclo, em janelas complementares. A estação exata ainda não pode ser estabelecida. Resumos que descrevem azeite, tecido e rebanho como o que se fazia nos meses sem corante vão além do artigo: a época do corante é a lacuna do modelo.
O único apoio antigo vem de Plínio, o Velho, que em História Natural IX, 62 diz que a melhor época de colher esses moluscos vai da ascensão da Canícula até antes da primavera, isto é, do fim do verão ao fim do inverno. O estudo registra que o testemunho de Plínio é debatido. Resta a razão prática: são necessários milhares de moluscos para uma única cuba, e uma colheita contínua, o ano todo, esgotaria as populações locais. Mar agitado e a qualidade do corante também pesariam.
Há ainda o tamanho da amostra. As análises vêm de dois espaços pequenos. Que o complexo inteiro girasse numa rotação sincronizada é, escrevem os autores, extrapolação além dos contextos amostrados. Eles oferecem a ideia como a leitura mais econômica e lembram que limpeza e pisos refeitos entre ciclos apagariam as lâminas finas de cada estação.
A fábrica de púrpura que o Reino do Norte assumiu dos fenícios
Tel Shiqmona foi escavado por Joseph Elgavish nas décadas de 1960 e 1970, por Shay Bar de 2011 a 2013 e por Shalvi em 2023. Os achados de Elgavish, recolhidos entre 1963 e 1977 para o Museu de Haifa, ficaram guardados em depósitos por meio século. Em 2025, Shalvi disse, segundo o ZME Science, que seria exagero chamar o lugar de “um lugar muito púrpura”: produzir o corante, observou, não era glamoroso.
Em abril de 2025, a mesma equipe publicou na PLOS One o estudo que identificou o sítio, com 176 artefatos ligados à produção de púrpura, 135 deles manchados, segundo o Times of Israel. A produção em escala industrial já existia no século IX a.C., e não só na época romana, afirmou Ayelet Gilboa. “Não era apenas uma pessoa tingindo uma roupa para o rei”, disse ela.
Segundo Shalvi, o lugar começou como uma pequena vila fenícia que já tingia, sem escala industrial. No século IX a.C. deixou de ser residencial, ganhou muralha e virou polo industrial, e passam a aparecer motivos do interior, ou seja, israelitas. Depois que os assírios derrubaram o Reino de Israel, a produção caiu por pouco tempo e voltou em grande escala, provavelmente sob gestão de fenícios, talvez de Tiro.
O Estrato 11 foi o auge. Rendeu mais de 40 artefatos ligados ao corante, mais da metade manchada, e ao menos 16 cubas de tingimento de cerca de 350 litros cada, não necessariamente em uso ao mesmo tempo, além de ao menos duas prensas de azeite. No edifício B283, bem conservado, apareceram uma prensa, uma cuba manchada e 16 pesos de tear no lugar, restos de um ou dois teares. A ocupação terminou numa destruição violenta. Depois, o Estrato 10 devolveu o local ao pastoreio, com uma casa de quatro cômodos que funcionava como fazenda.
Azul e púrpura na Bíblia, do Tabernáculo ao Templo
A Bíblia nomeia o corante que o sítio produzia. Em Êxodo 25:4, entre as ofertas para o santuário estão fios de azul (techelet), púrpura (argaman) e carmesim. Números 15:38 manda pôr um cordão azul nas franjas das vestes. Em 2 Crônicas 2:7, Salomão pede ao rei de Tiro um artesão que saiba trabalhar púrpura, carmesim e azul, e 2 Crônicas 3:14 descreve o véu do Templo nessas cores. Ezequiel 27:7 menciona o azul e a púrpura das costas de Elisá entre os luxos de Tiro.
Quem abastecia o Templo de Jerusalém é questão de hipótese. Em 2025, Shalvi disse ao Times of Israel que Tel Shiqmona é, a seu ver, a candidata mais forte a ter fornecido o Primeiro Templo, e que os israelitas provavelmente exportavam o corante para a Filístia, Moabe, Edom e Judá. A ligação com o Templo é opinião do pesquisador, não resultado do estudo de 2026, que trata do uso sazonal do espaço. Gilboa acrescentou que documentos assírios, como o Cilindro de Senaqueribe, de cerca de 690 a.C., citam techelet e argaman, e que agora há prova de produção em massa na época.
O Estrato 11 coincide com o reinado de Jeroboão II e com o tempo do profeta Amós. Segundo 2 Reis 14:23-29, Jeroboão reinou em Samaria por 41 anos; Amós 1:1 situa o profeta nesse período. Amós 6:4-6 fala de quem se deita em camas de marfim e se unge com os melhores óleos. O estudo não discute esses textos, mas sua bibliografia inclui um artigo de 2026 de Omer Sergi e J. J. Krause sobre a crítica social em Amós à luz da arqueologia recente. O azeite de prensa também aparece na Lei: o óleo de oliva batida para a lâmpada do Tabernáculo (Êxodo 27:20).
Séculos depois, a púrpura segue no Novo Testamento. Lídia, de Tiatira, vendia tecidos de púrpura e hospedou Paulo em Filipos (Atos 16:14-15). Os soldados vestiram Jesus com um manto de púrpura (Marcos 15:17).
O que os autores defendem e o que vem a seguir
Para Shalvi, a lição é de método. “Quando arqueólogos encontram uma prensa de azeite, a tendência natural é dizer que ali se produziu azeite”, afirmou no comunicado da universidade, lembrando que a colheita dura pouco, no fim do outono. A pergunta que o estudo deixa para qualquer sítio é o que se fazia ali nos meses em que a indústria ficava parada.
David Friesem, chefe do Laboratório de Micro-história Ambiental da universidade, diz que o padrão sazonal de Shiqmona pode ser encontrado em outros sítios por meio de pesquisa integrada, e que otimizar recursos e espaço era traço das sociedades antigas “não menos do que das nossas”. Os autores veem na flexibilidade uma necessidade logística, num sítio de cerca de dois acres, e também sinal de administração sofisticada dos bens do reino. O Green Prophet, lendo o estudo pela lente da arquitetura, vê nele um modelo de uso flexível de edifícios.
O que falta é medir a estação no próprio material. O artigo diz que análises de isótopos estáveis ou do crescimento das conchas de múrice e dos restos de fauna poderiam testar o calendário diretamente. Os autores dizem que pretendem fazer um estudo dedicado a descobrir em que estação a púrpura era produzida.