Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
O sítio arqueológico de Tell Qasile, na periferia norte de Tel Aviv, voltou ao noticiário com um artigo do arqueólogo Amihai Mazar. O texto saiu em 28 de outubro de 2026 no site da Biblical Archaeology Society e na edição de outono da revista Biblical Archaeology Review. Mazar é professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém e escavou o local nos anos 1970 e 1980.
Não há descoberta nova aqui, nem estudo com dados inéditos. É um balanço, escrito por quem dirigiu as escavações, de uma cidade portuária filisteia da época dos Juízes. A revista é de divulgação, não um periódico acadêmico. Os resultados completos estão nos relatórios finais do próprio Mazar, publicados em volumes pela Universidade Hebraica de Jerusalém.
Um porto filisteu dentro de Tel Aviv
Tell Qasile fica na margem do rio Yarkon, a cerca de uma milha da costa do Mediterrâneo. A BAS informa que o local foi ocupado pela primeira vez pelos filisteus na segunda metade do século 12 a.C. Ao contrário das cinco grandes cidades filisteias mais ao sul (Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate), ficava no interior, sobre o rio, o que lhe dava acesso à navegação fluvial e ao mar com mais abrigo contra o tempo ruim.
As escavações distinguiram três fases principais, os estratos XII, XI e X. Elas cobrem cerca de 150 anos, até a destruição pelo fogo por volta de 1000 a.C. Nesse período, a vila inicial virou uma cidade com templo de pedra, casas, oficinas e um mercado central, segundo o resumo da BAS.
A história moderna do lugar é longa. O sítio era chamado el-Khurby, "as ruínas". Antes de 1948, ficava em terras da vila árabe de Al-Shaykh Muwannis, esvaziada na guerra daquele ano, segundo a Wikipédia. As primeiras escavações começaram em 1948. Benjamin Mazar dirigiu o trabalho até 1950 e recebeu a primeira licença de escavação do recém-criado Estado de Israel. O sobrinho dele, Amihai Mazar, dirigiu as campanhas de 1971 a 1974 e de 1982 a 1990. Hoje o tell está dentro do terreno do Museu Eretz Israel (MUZA), onde parte dos achados pode ser vista.
Três templos no mesmo lugar e um deus sem nome
O que mais atraiu atenção foi a área sagrada, no lado leste do monte. Em 1977, Mazar já descrevia três templos filisteus construídos em sequência no mesmo ponto, a partir do século 12 a.C. A BAS explica que o último, do estrato X, reaproveitou as paredes externas do anterior. Ele ganhou uma sala de entrada que obrigava o visitante a fazer uma curva para chegar ao salão principal. No salão, duas bases circulares de pedra sustentavam colunas de madeira. Os restos carbonizados foram identificados como cedro, provavelmente importado do Líbano, o que indica riqueza e rotas comerciais amplas.
O salão tinha uma plataforma elevada junto à parede dos fundos e bancos rebocados em dois níveis nas laterais. Uma câmara pequena atrás do altar provavelmente guardava os vasos de culto. Nessa fase o templo foi ampliado para cerca de 14,5 por 8 metros.
Os objetos de culto são variados: vasos em forma de figuras humanas e de animais, máscaras, suportes e estatuetas, como descreve o catálogo do volume final sobre o santuário. Há também um vaso com uma abertura central e quatro periféricas, datado da última fase. Mazar admite que sua explicação é especulação: ele supõe que o vaso tenha abrigado uma planta sagrada, regada pelas aberturas laterais, como em cenas rituais do Oriente Próximo antigo.
Há uma lacuna que o próprio escavador reconhece. Ele escreve que não se sabe a identidade da divindade (ou divindades) adorada no templo, porque nenhum texto ou inscrição foi achado ali. Qualquer nome proposto, inclusive o de Dagom, é hipótese.
Filisteus, cananeus e uma pergunta sobre quem eram
A imagem popular opõe filisteus invasores a cananeus nativos. Tell Qasile complica esse quadro. Nas casas aparecem jarras de armazenamento cananeias ao lado de cerâmica filisteia pintada. A arquitetura segue técnicas locais, mas a organização interna das casas e dos santuários domésticos mostra sensibilidade egeia, segundo a BAS. Um estudo do próprio Mazar sobre as moradias estima que o estrato X abrigava entre 480 e 680 pessoas, em traçado urbano denso.
A ligação com o mundo egeu aparece também nos objetos. O kernos, vaso ritual de libação de origem egeia, em forma de anel oco com figuras de animais, tem paralelos nos sítios filisteus. Outro tipo comum, o rhyton com cabeça de leão e uma alça, foi achado em Ecrom, Megido e Tell Qasile.
Isso não encerra a discussão sobre a origem do grupo. A maioria dos estudiosos liga os filisteus aos Povos do Mar, e um estudo de DNA antigo de Ascalom reforçou a hipótese de migração do mundo egeu. Louise Hitchcock, da Universidade de Melbourne, pede cautela: "I don't think you can say they were Philistine based on their DNA" (em tradução livre, não se pode chamar alguém de filisteu só pelo DNA). Para ela, o que define a cultura é o conjunto da cultura material.
Há divergências específicas sobre Qasile. A pesquisadora Elizabeth Bloch-Smith observou que o local, citado como exemplo de prática filisteia, pode ter sido fundado por outro grupo dos Povos do Mar. Já um resumo da Universidade Creighton afirma que, depois de uma destruição, a cidade foi reconstruída, presumivelmente por israelitas, no estrato X. O texto da BAS, por sua vez, trata a cidade como filisteia e mista até o fim. A destruição também é datada de forma diferente. Mazar a situa por volta de 1000 a.C., enquanto uma síntese mais antiga a associa à campanha do faraó Sisaque, em 924 a.C.
Sansão, Dagom e o que a comparação permite dizer
Tell Qasile não é citado pelo nome na Bíblia. Os filisteus aparecem como uma confederação de cinco cidades, Gaza, Asdode, Ascalom, Ecrom e Gate, como em Josué 13:2-3. Qasile não está entre elas. Uma proposta antiga o relaciona a Me-Jarcom, citada em Josué 19:46, mas é só proposta.
A ponte mais comentada vem de Juízes 16:23-30. Ali, Sansão, cego e cativo, derruba o templo de Dagom em Gaza empurrando as duas colunas centrais. Algumas publicações afirmam que o templo de Qasile confirma o relato. O argumento é que as bases de colunas ficam a cerca de 2 metros uma da outra, ao alcance de um homem alto. Um paralelo semelhante é apontado em Ecrom, onde Trude Dothan achou outro templo com duas colunas centrais.
O que a evidência permite dizer é mais modesto. Templos filisteus com duas colunas centrais existiram, e um narrador que conhecia esse tipo de edifício teria descrito a cena de modo plausível. O templo de Gaza nunca foi escavado, porque uma cidade moderna está sobre ele, e a afirmação de que ele seria parecido com o de Qasile é uma suposição. O templo de Qasile é, além disso, dos séculos 12 a 11 a.C., e a identidade do deus ali cultuado é desconhecida. Textos que dizem que o achado valida a historicidade das narrativas de Sansão vão além do que as escavações mostram. A arqueologia dá contexto ao cenário e não prova o episódio.
O ostracon do ouro de Ofir e a dúvida sobre sua autenticidade
Há outro ponto em que Qasile aparece em discussões bíblicas. Em 1945 e 1946, antes de qualquer escavação, dois cacos de cerâmica com escrita em hebraico antigo foram achados na superfície do monte. Um deles, segundo a BAS, diz: "Ouro de Ofir pertencente a Bet-Horom: 30 siclos". Ofir é a região de onde Salomão trazia ouro, segundo 1 Reis 9:26-28 e 10:11. Bet-Horom aparece em 1 Reis 9:17 entre as cidades que Salomão reconstruiu.
O caso é menos firme do que parece. Os dois cacos foram achados na superfície, por Jacob Kaplan e Robert Hoff, em momentos diferentes e antes de qualquer escavação. A escavação estratigráfica de 1948 a 1950 não encontrou outras inscrições. Segundo a BAS, a escrita foi datada pelo primeiro editor, Benjamin Mazar, provavelmente do século 8 a.C. Isso é bem depois de Salomão. A mesma fonte lembra que são duas das três inscrições do sítio, que a terceira, um selo, é quase certamente falsificação moderna e que a mesma pessoa teria participado da descoberta de pelo menos duas. A BAS diz que características dos cacos, da língua e da escrita levantam dúvidas sobre a autenticidade. Isso não prova fraude, mas pede cautela.
Por isso, a frase de que o caco "prova" a existência de Ofir, repetida em alguns sites religiosos, vai além do que se pode dizer. Se autênticos, os textos seriam fonte valiosa sobre a economia de Qasile sob o reino de Judá. Onde ficava Ofir continua desconhecido.
Para o leitor da Bíblia, o valor de Tell Qasile está menos em provar passagens e mais em mostrar como era o mundo dos Juízes. Era um mundo de portos, comércio, templos com cedro libanês, jarras cananeias e cerâmica de estilo egeu, onde filisteus e cananeus conviviam. A arqueologia ajuda a entender o cenário em que se leem Juízes e 1 Samuel, sem substituir o texto.
Tell Qasile foi uma cidade portuária filisteia fundada no século 12 a.C., com três fases (XII, XI e X) e três templos sucessivos no mesmo lugar.
O templo do estrato X tinha duas bases de pedra para colunas de cedro, e a cerâmica e os objetos de culto misturam tradições filisteias, cananeias e egeias.
O sítio foi escavado por Benjamin Mazar (1948-1950) e por Amihai Mazar (1971-1974 e 1982-1990), e hoje está dentro do Museu Eretz Israel, em Tel Aviv.
Nenhum texto foi achado nos templos, e a divindade ali cultuada é desconhecida.
O que ainda não se sabe
Se o templo de Gaza descrito em Juízes 16 era parecido com o de Qasile, pois Gaza nunca foi escavada nesse nível.
Se os dois ostraca de superfície, entre eles o do "ouro de Ofir", são autênticos.
Se o estrato X foi obra de filisteus, de israelitas ou de uma população mista, e se a destruição ocorreu por volta de 1000 a.C. ou mais tarde.
Qual era o nome antigo do sítio e a que povo do Mar pertenciam seus fundadores.