Italian archaeologists discover links to tomb of Jesus underneath Jerusalem's Church of the Holy Sepulchre Foto: euronews
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Uma equipe da Universidade Sapienza, de Roma, publicou o balanço do que encontrou sob o piso da Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém: uma pedreira abandonada, terrenos cultivados e sepulturas abertas na rocha. A Euronews resumiu o assunto em 27 de outubro de 2026, sob a manchete de que arqueólogos italianos descobriram ligações com o túmulo de Jesus. A base é um relatório preliminar de 98 páginas, sobre a campanha final de escavação, publicado na Liber Annuus, revista do Studium Biblicum Franciscanum. É um relatório de campo, não a identificação de um túmulo. As escavações não apontam nenhum túmulo específico como o de Jesus.
A coordenadora, Francesca Romana Stasolla, disse ao Daily Mail: “Encontramos evidências de uma paisagem funerária”. A frase é cuidadosa e convém lê-la assim. Uma paisagem funerária é um conjunto de sepulturas numa área. Não é um sepulcro com nome.
Um relatório de campo, e não uma descoberta desta semana
A escavação nasceu de uma obra de conservação. Em 2022 se planejava uma restauração do piso da igreja, que acabou virando um extenso projeto de escavação. O trabalho foi aprovado pelas três comunidades que administram a igreja (Patriarcado Ortodoxo, Custódia da Terra Santa e Patriarcado Armênio) e licenciado pela Autoridade de Antiguidades de Israel. Para não interromper cultos nem peregrinações, a escavação foi planejada para correr de modo contínuo, dia e noite, por mais de dois anos e meio.
O resumo do artigo, no repositório da Sapienza, diz que a campanha de 2025 conclui as investigações na nave norte e nos intercolúnios da Rotunda, o que permite uma primeira síntese topográfica do complexo inteiro. O texto descreve a pedreira da colina de Gareb como matriz de tudo o que veio depois, com várias fases de extração, regularização da rocha e reusos agrícolas e funerários. Traz também dados novos sobre a drenagem do complexo paleocristão e uma primeira análise de cerâmicas da Idade do Ferro. São nove autores. O documento é preliminar: a documentação e a análise dos materiais continuam.
Boa parte do que a imprensa tratou como novidade já era conhecida. Em 2025, o Times of Israel havia publicado uma entrevista com Stasolla sobre vestígios de um antigo jardim, com oliveiras e videiras, que ecoavam o Evangelho de João. O que mudou foi a publicação formal, em revista acadêmica, de uma síntese da escavação inteira.
Dois pontos da cobertura pedem calma. O primeiro é a data. A Euronews escreve que foram achados traços de oliveiras e vinhas datados de cerca de 33 d.C., período em que se costuma situar a morte de Jesus. Isso vai além do que está publicado. O Arkeonews lembra que o contexto arqueológico coloca esses restos na fase pré-cristã do local, mas a datação por radiocarbono ainda não havia fornecido uma data tão exata. A própria Euronews admite, mais abaixo no texto, que os restos vegetais ainda não podem ser datados com precisão. O segundo ponto é o tom de alguns títulos, que falaram em “túmulo verdadeiro” encontrado. Os arqueólogos não recuperaram o corpo, nem uma inscrição com o nome de Jesus, nem outra prova capaz de identificar um túmulo como o de Jesus de Nazaré.
Pedreira, muros baixos e vinhas: o que a terra mostrou
A imagem que o relatório reconstrói começa muito antes de Jesus. As camadas mais fundas chegam à Idade do Ferro: sob as lajes modernas há estratos que remontam a esse período, com cerâmica, lamparinas e sepulturas. A colina foi explorada como pedreira. Stasolla confirmou à Catholic News Agency que a equipe documentou uso funerário e agrícola anterior à reestruturação de Adriano, por volta de 130 d.C.
Quando a extração de pedra foi sendo abandonada, o terreno ganhou outros usos. Foram erguidos muros baixos de pedra, com o espaço entre eles preenchido de terra, e túmulos foram escavados na rocha à medida que a pedreira deixava de ser explorada. Segundo o Arkeonews, as análises detectaram restos associados a cereais, uvas, figos e gramíneas, além de madeira de videira e pólen compatíveis com o cultivo de uvas e, talvez, de oliveiras.
É aqui que entra o trabalho de laboratório. A arqueobotânica estuda sementes, carvão e madeira. A palinologia identifica pólen. Os vestígios de oliveiras e videiras foram identificados por análise arqueobotânica, inclusive de pólen, em amostras tiradas sob o piso. Pelo contexto, os estratos são pré-cristãos, e o radiocarbono ainda não havia sido feito. Datar pelo contexto significa que a camada está abaixo de outra, mais recente, cuja idade é conhecida. É um método aceito, mas dá um intervalo largo. O carbono-14 daria uma faixa mais estreita.
O sítio não pôde ser aberto de uma vez. A equipe dividiu a área em seções, escavando uma de cada vez e cobrindo-a de novo. A visão de conjunto vem de reconstruções digitais. Stasolla vê no achado uma correspondência com o Evangelho: “The Gospel mentions a green area between the Calvary and the tomb, and we identified these cultivated fields.” Em português: o Evangelho menciona uma área verde entre o Calvário e o túmulo, e a equipe identificou esses campos cultivados.
Há um detalhe de geografia. Segundo Stasolla, ali havia uma colina, parte da qual foi escavada para formar uma pedreira, e o Calvário ficava elevado acima da depressão criada pela extração.
O que dizem os Evangelhos e onde a arqueologia encaixa
O texto bíblico mais próximo do achado é João 19:41-42. O evangelista afirma que, no lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim, e no jardim um túmulo novo, onde ninguém ainda havia sido posto. Como era a preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, ali o sepultaram. Em João 19:20, o lugar da crucificação é descrito como próximo da cidade. João 20:15 traz Maria Madalena tomando Jesus por alguém que cuidava do jardim, o “jardineiro”.
Os outros Evangelhos acrescentam que o túmulo era talhado na rocha. Mateus 27:57-60 fala de um homem rico, José de Arimateia, que depositou o corpo em seu próprio túmulo novo, aberto na rocha. Marcos 15:46 e Lucas 23:53 também dizem que o sepulcro era escavado na pedra. A Carta aos Hebreus, em 13:12, afirma que Jesus sofreu fora da porta da cidade. Cada um desses traços tem alguma ressonância com o que a escavação encontrou: terreno fora das muralhas da época, campos cultivados, rocha trabalhada e sepulturas.
Stasolla explicou que “no tempo de Jesus, esta área ainda estava fora das muralhas da cidade”, e só décadas depois passou a fazer parte da romana Aelia Capitolina. Isso é coerente com o que se sabe de Jerusalém, onde os sepultamentos ficavam fora da área habitada.
Há ainda uma evidência mais antiga que a escavação atual e que muitos especialistas consideram a mais forte. Dentro da basílica, numa capela dos sírios a oeste da Rotunda, ficam outros túmulos do século I, com nichos de sepultamento (kokhim) claramente da época da morte de Cristo, o que atesta uma área de enterramentos no lugar. Em um podcast do Times of Israel, de 2022, a arqueóloga Jodi Magness, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, aponta esses dois nichos judaicos como prova de que ali havia um cemitério no tempo de Jesus e, portanto, fora da cidade. Segundo ela, é o ponto em que a arqueologia mais se aproxima de confirmar a autenticidade do local, ainda que nada seja inequívoco.
Christian pilgrims hold candles as they gather in the Church of the Holy Sepulchre in Jerusalem's Old City. Copyright 2021 The Associated Press. All rights reserved. Foto: euronews
Constantino, o século IV e a argamassa de 345
O local passou por camadas de história que a escavação ajuda a separar. Depois da destruição de Jerusalém no ano 70 e da refundação da cidade por Adriano, por volta de 130, o lugar onde Constantino mandou construir a igreja era um templo pagão erguido por Adriano. O local é reconhecido desde o início do século IV como aquele em que Jesus foi crucificado, sepultado e ressuscitou, e a igreja foi consagrada em 13 de setembro de 335.
Os dados científicos mais fortes sobre o túmulo em si vieram da restauração do edículo, o santuário que envolve a rocha venerada, em 2016 e 2017. A equipe da Universidade Técnica Nacional de Atenas, liderada por Antonia Moropoulou, submeteu amostras de argamassa a testes de luminescência opticamente estimulada, que indicam quando os grãos de quartzo foram expostos à luz pela última vez. A argamassa que liga a laje à rocha foi datada de 335 a 345 d.C. O arqueólogo Martin Biddle comentou à National Geographic que a data é precisa para o que quer que Constantino tenha feito. Os resultados saíram na revista Journal of Archaeological Science: Reports, em 2018. A reportagem da National Geographic ressalvou que continua impossível provar arqueologicamente que o túmulo é o lugar onde Cristo foi sepultado.
A escavação da Sapienza acrescenta peças a essa fase. O relatório de 2023 registrou que foi encontrada a abside da igreja paleocristã, sob a qual corre uma rua romana. Segundo o Arkeonews, sob o edículo apareceu uma grande base circular de mármore, e a equipe sugere que o elemento pode pertencer ao tratamento original dado por Constantino ao túmulo venerado. A forma circular é notável porque algumas representações antigas mostram o santuário como estrutura redonda. Moedas de Constâncio II e de Valente, achadas na Rotunda, situam a atividade associada no século IV.
A Christian pilgrim prays in front of the doors of the Church of the Holy Sepulchre in Jerusalem's Old City. KEVIN FRAYER/AP Foto: euronews
O que dizem os céticos e o intervalo de trezentos anos
O argumento central dos críticos não é que o relatório esteja errado. É que a ligação com Jesus depende de uma cadeia de memória que a arqueologia não alcança. Magness resume no podcast: muitos estudiosos acham provável que a igreja esteja no local autêntico porque a tradição é tão antiga, mas resta uma lacuna de cerca de trezentos anos entre a crucificação e Constantino, que ela descreve como um salto de fé que a arqueologia não atravessa. A fala é de 2022, anterior ao relatório de 2025, e não uma reação a ele. Nas fontes que consultei, não localizei réplica publicada de outros especialistas especificamente a esse relatório.
A Euronews, em seu próprio texto, enumera os limites. Não há inscrição nesse sentido, e não se pode demonstrar que a câmara funerária estivesse sem uso ou pertencesse a José de Arimateia. O Arkeonews acrescenta que não existe método arqueológico capaz de identificar com certeza quem ocupou o túmulo tradicional. O jardim, aliás, é uma correspondência de paisagem: o relatório não afirma que esse terreno cultivado seja o jardim de João.
Há também uma discussão mais antiga sobre o local. Os arqueólogos Shimon Gibson e Joan Taylor, em seu livro de 1994 sobre a área, já haviam concluído que toda a região fora uma pedreira da Idade do Ferro, com cortes irregulares, escarpas e cavernas. Taylor sustenta ainda que, na forma atual de “dedo de rocha”, teria sido logisticamente impossível crucificar três pessoas em seu topo. A observação mostra por que historiadores tratam o Gólgota com prudência, mesmo quando aceitam a localização geral.
Quanto à alternativa popular do Túmulo do Jardim, a objeção é cronológica. Ele não era um “túmulo novo” (João 19:41): já tinha mais de 600 anos no tempo de Jesus. E só foi identificado como o túmulo de Jesus no século XIX.
A própria diretora do projeto separa os planos. Perguntada se o achado ecoa João 19:41, Stasolla concordou, mas traçou uma linha entre a pesquisa arqueológica e a teologia.
O que muda para quem lê os Evangelhos
A contribuição do relatório é de outra natureza do que a manchete sugere. Ele não prova que Jesus foi sepultado ali. Mostra que o local venerado desde o século IV tem características geográficas e arqueológicas compatíveis com as descrições do Novo Testamento. A Euronews diz o mesmo quando afirma que o sítio venerado pelos cristãos há séculos tem traços que correspondem às descrições do Novo Testamento. Compatível não é o mesmo que confirmado, e o leitor que conhece os textos sabe a diferença.
Para quem lê João, o ganho é de contexto. O jardim, o túmulo na rocha, o local fora da cidade e a proximidade do lugar de execução deixam de ser detalhes sem paisagem e ganham um terreno que existiu, a poucos metros de onde hoje milhões de peregrinos rezam. A pergunta que a pedra não responde, qual cavidade foi usada e por quem, continua sendo uma pergunta de história e de fé.
Os próximos passos são mensuráveis. Falta datar as plantas com radiocarbono. O primeiro volume do Projeto Hagia Polis sobre as escavações no Santo Sepulcro, dedicado ao projeto e à metodologia, foi organizado por Stasolla em 2026. E ela já advertiu que o trabalho ainda está em andamento e o estudo reservará muitas surpresas.
A member of the restoration team works on the floor of the Church of the Holy Sepulchre, where many Christians believe that Jesus was crucified, buried and rose from the dead. Copyright 2022 The Associated Press. All rights reserved Foto: euronews
Uma equipe da Sapienza, de Roma, publicou na Liber Annuus um relatório preliminar de 98 páginas sobre a escavação de 2025 sob a Basílica do Santo Sepulcro.
O relatório documenta uma pedreira com várias fases de extração, reusos agrícolas e funerários e túmulos escavados na rocha, em terreno que no tempo de Jesus ficava fora das muralhas.
Não há inscrição, corpo ou outra prova que identifique um túmulo como o de Jesus; a argamassa do edículo foi datada de cerca de 335 a 345 d.C.
Os restos de oliveiras e videiras foram atribuídos a uma fase pré-cristã pelo contexto, não por carbono-14.
O que ainda não se sabe
A idade exata das plantas, já que a datação por radiocarbono ainda não foi publicada.
Se a cavidade venerada era um túmulo novo, sem uso anterior, e se pertencia a José de Arimateia.
Como a memória do local foi transmitida durante os cerca de trezentos anos entre a crucificação e Constantino.
Como outros especialistas receberão o relatório, já que não localizei réplicas publicadas a ele.