Onde Jesus foi batizado: arqueólogo diz que ruínas na Jordânia escavadas até 2002 revelam o 'verdadeiro lugar'
Estudo de seis páginas de Mohammad Waheeb revisita escavações de 1996 a 2002; em 2015, assessores da UNESCO disseram que a prova arqueológica não basta.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
O arqueólogo jordaniano Mohammad Waheeb, da Universidade Hachemita, afirma que as escavações feitas entre 1996 e 2002 em Al-Maghtas, na margem leste do rio Jordão, mostram o “verdadeiro lugar” do batismo de Cristo. A tese está num artigo de seis páginas, assinado só por ele, no volume 16 (1) do Egyptian Journal of Archaeological and Restoration Studies. O texto ganhou o mundo na semana de 20 de outubro de 2026, em reportagens do Daily Mail e de outros veículos. Não se trata de uma escavação nova, mas da releitura de achados com mais de 24 anos.
Um artigo de seis páginas, assinado pelo chefe das escavações
O texto se chama “Nem Betânia nem Betabara, mas Betânia além do Jordão, local do batismo de Jesus”. Segundo o PDF da revista, foi recebido em janeiro de 2025 e aceito em dezembro do mesmo ano. A publicação, ligada à Universidade de Sohag, no Egito, se apresenta como internacional e revisada por pares.
Waheeb não é um observador externo. Ele montou o argumento cruzando as ruínas escavadas entre 1996 e 2002 com descrições deixadas por viajantes e peregrinos antigos. O próprio artigo diz que as descobertas foram feitas por ele e sua equipe. Dos 24 itens da bibliografia, nove são trabalhos dele. Isso é comum em quem dirigiu uma escavação, mas explica por que o texto soa mais como síntese do autor do que como avaliação independente.
A conclusão é forte. O artigo afirma que igrejas, piscinas batismais, salas de oração, mosaicos e sistemas de água de época romano-bizantina provam que o sítio, e não a chamada Betabara, é a Betânia de João 1:28. A introdução cita resultados de análises de laboratório, mas o texto não apresenta dados de datação nem diz que materiais foram analisados.
A manchete diz “descoberto”, mas as ruínas são conhecidas desde os anos 1990
O exagero está na palavra descoberta. Al-Maghtas é escavado desde os anos 1990. O tratado de paz entre Jordânia e Israel, de 1994, encerrou décadas em que a área foi zona militar fechada, e as escavações começaram em seguida, segundo o relatório dos assessores da UNESCO. O sítio entrou na lista do Patrimônio Mundial em 2015. Seis anos de escavação revelaram igrejas, piscinas batismais, salas de oração e sistemas de água, e é isso que o artigo de 2026 retoma.
O sítio tem duas áreas. A primeira é Tell el-Kharrar, a “Colina de Elias”, a dois quilômetros do rio, onde há um mosteiro bizantino com três igrejas e três piscinas. A segunda fica junto à água, com as igrejas de São João Batista, cerca de nove quilômetros ao norte do mar Morto. O relatório atribui a primeira igreja desse conjunto ao imperador Anastácio, entre 491 e 518. Data em torno de 570 uma escadaria de 22 degraus de mármore preto que desce a uma piscina. O lugar foi abandonado no fim do século XV.
Há camadas mais antigas. O mesmo relatório fala de uma pequena comunidade agrícola por volta de 3500 a.C. e de vestígios helenísticos. Mas coloca o grande desenvolvimento do sítio na era romano-bizantina, com as principais estruturas posteriores ao século IV.
O próprio Waheeb já foi mais cauteloso. Num texto de 1999 para a Associação Americana de Escolas Orientais (ASOR), reproduzido na Wikipédia, ele via num salão retangular um possível local de oração do fim do período romano, séculos II ou III, mas com ponto de interrogação. As igrejas e piscinas da colina, dizia, eram dos séculos V e VI. Ou seja: o sítio existe, é antigo e foi muito frequentado por cristãos. O que o artigo traz de novo é a interpretação, não um achado.
João fala em Betânia, Orígenes preferiu Betabara
Os quatro Evangelhos registram o batismo de Jesus por João (Mateus 3:13-17; Marcos 1:9-11; Lucas 3:21-22; João 1:29-34). Só João dá nome ao lugar. Em João 1:28, a cena se passa em “Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando”. Em João 10:40, Jesus volta para além do Jordão, ao lugar onde João batizava no começo.
Existe outra Betânia, a de Lázaro, Marta e Maria, perto de Jerusalém (João 11:1, 18). Ao acrescentar “além do Jordão”, João parece distinguir o local do batismo dessa outra Betânia.
No século III, Orígenes não achou nenhuma Betânia a leste do rio e propôs ler “Betabara”, “casa da travessia”, nome de um lugar que lhe indicaram na margem oeste. Segundo a Biblical Archaeology Society, Eusébio e Jerônimo o seguiram. A leitura aparece no mapa de Madaba e na Bíblia King James. Mas os grandes códices Vaticano e Sinaítico, do século IV, trazem Betânia, e a maioria das traduções modernas segue essa leitura. Waheeb escreve que Orígenes se enganou ao mudar o lugar para o oeste.
O cenário também tem eco no Antigo Testamento. O povo de Israel atravessou o Jordão diante de Jericó (Josué 3:14-17), e Elias e Eliseu cruzaram o rio antes de Elias ser levado ao céu (2 Reis 2:8-14). Tradições antigas ligam Al-Maghtas e a Colina de Elias a esses episódios.
Peregrinos e mapa de Madaba apontam para os dois lados do rio
O artigo se apoia em relatos de viagem. O Peregrino de Bordeaux, em 333, e Teodósio, por volta de 530, situaram o batismo a cerca de cinco milhas do ponto em que o Jordão chega ao mar Morto. O Peregrino de Piacenza, por volta de 570, descreve um grande mosteiro de São João perto do local, com duas hospedarias para peregrinos.
A medida das cinco milhas tem um limite que o artigo não discute. Qasr el-Yahud, na margem oeste, fica diretamente em frente ao sítio jordaniano, de modo que a distância ao mar Morto vale para os dois lados. Sozinha, ela não escolhe a margem.
O mapa de Madaba, um mosaico do século VI numa igreja da Jordânia, é mais complicado. Rami Khouri, em artigo da Biblical Archaeology Review, observa que o mapa traz Beth Abara na margem oeste, com uma legenda sobre o batismo de São João. Para Khouri, o mosaicista, que vivia a leste do rio, talvez tenha entendido “além do Jordão” como o lado oeste. Já para o autor do Evangelho, “além” significa leste.
Waheeb lê o mapa de outro modo. Para ele, os rótulos separados para locais nas duas margens sustentam que Betânia além do Jordão e Betabara eram lugares distintos. Na margem leste, o mapa traz Enon, “agora Sapsafas”.
Os peregrinos nunca ficaram de um lado só. Desde o período bizantino há mosteiros nas duas margens, mas o lado oeste era mais acessível a quem vinha de Jerusalém e Jericó. O estudioso Eugenio Alliata, citado na Wikipédia, escreveu que no século VI o foco da veneração já se deslocara para o oeste.
A discussão tem uma longa linha do tempo. Em 1485, o frade Francesco Suriano registrou que o rio havia mudado de leito em cerca de uma milha. Em 1899, o padre Féderlin fotografou as fundações de uma capela sobre arcos na foz do Wadi Kharrar, e o padre F.M. Abel ainda via os arcos em 1932. Depois de 1967, as duas margens viraram linha de frente e ficaram fechadas. Após o tratado de 1994, a Jordânia reabriu Al-Maghtas em 2002, e o sítio de Qasr el-Yahud foi aberto ao público por Israel em 2011, depois da remoção de minas. A mudança do curso do Jordão também explica por que o ponto venerado hoje fica afastado da água, no interior, depois que o rio mudou de curso.
A UNESCO e outros especialistas já haviam pedido cautela
Em 2015, o Icomos, órgão que assessorou a UNESCO na inscrição, avaliou o dossiê da Jordânia. Disse que as evidências não provam, sem margem de dúvida, que as estruturas de Jabal Mar Elias e das igrejas junto ao rio tenham ligação com o batismo de Jesus. Lembrou que vários pontos do Jordão já reivindicaram o mesmo título. E afirmou que não podia seguir os argumentos arqueológicos apresentados para provar o local exato.
O Icomos reconheceu, porém, que a margem leste é aceita pela grande maioria das denominações cristãs. Observou também que o ambiente de deserto descrito nos Evangelhos parece faltar na margem oposta. O sítio foi inscrito pelos critérios (iii) e (vi), ligados à tradição do batismo e da peregrinação, e não como prova do evento.
A arqueóloga Jodi Magness, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, disse à Associated Press que a identificação de Betânia além do Jordão, em qualquer das margens, “não tem nada a ver com a realidade arqueológica”. Segundo ela, não há sítio com restos continuamente venerados desde o século I. A Biblical Archaeology Society acrescenta que a veneração na margem leste, atestada por igrejas e mosteiro, começou no período bizantino, no mais cedo.
Há ainda quem prefira um lugar bem diferente. Nem todos os estudiosos aceitam a identificação, e alguns preferem um local ao norte do mar da Galileia, junto ao rio Yarmuk.
Quanto ao argumento central de Waheeb, o artigo diz que os restos indicam que a área era habitada no tempo de João e de Jesus. É uma afirmação mais modesta do que a conclusão de que o lugar do batismo foi achado. Haver gente morando perto do rio no século I não demonstra que João batizou ali.
Para quem lê João, a margem leste é plausível, mas o ponto exato segue sem prova
Waheeb, Khouri e o Icomos convergem num ponto: para o autor do Quarto Evangelho, “além do Jordão” é a margem leste. Jesus vinha da Galileia (Mateus 3:13), e, segundo Khouri, a rota comum entre a Galileia e a Judeia evitava Samaria descendo pelo lado leste do rio. Isso torna a leste uma hipótese razoável.
O que falta é o elo entre as ruínas bizantinas e o primeiro século. Sem inscrição, achado ou texto da época, a ligação depende de tradição e de peregrinos que escrevem séculos depois dos fatos, 300 anos no caso do Peregrino de Bordeaux e 500 no de Teodósio. O artigo de 2026 não preenche essa lacuna: reorganiza os dados já conhecidos e os lê a favor da margem leste.
A Jordânia planeja um Museu do Batismo de Jesus em Al-Maghtas, com abertura prevista para 2030, data associada ao bimilenário do batismo. O artigo de Waheeb recomenda preservar os monumentos, continuar os estudos e criar condições para o desenvolvimento do turismo no sítio.